Anielle Guedes http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br Anielle estudou Física e Economia na Universidade de São Paulo e sem concluir os cursos de graduação embarcou em uma pós graduação nos Estados Unidos sobre inovação disruptiva na Singularity University Thu, 06 Jun 2019 07:00:41 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Turismo espacial: férias inesquecíveis na Lua http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/06/06/turismo-espacial-ferias-inesqueciveis-na-lua/ http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/06/06/turismo-espacial-ferias-inesqueciveis-na-lua/#respond Thu, 06 Jun 2019 07:00:41 +0000 http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/?p=126 Um período de férias na Lua, até há alguns anos, era um conceito possível somente em filmes e séries de ficção científica. Agora, a viagem ao espaço é uma possibilidade muito mais próxima da realidade e pode estar ao alcance de mais pessoas, não somente dos astronautas profissionais.

O fluxo de viagens ao espaço deve aumentar nos próximos anos e diferentemente do que ocorreu entre os Estados Unidos e União Soviética, a Corrida Espacial do século 21 é liderada pela iniciativa privada. Gigantes como SpaceX e Boeing competem para ver quem chega mais longe – e primeiro. Quem serão os empreendedores mais bem-sucedidos na exploração do espaço?

Há 50 anos o homem pisava na Lua. Em 2019 ainda aguardamos pelos próximos passos

Próximo da véspera do aniversário de 50 anos da chegada da Apollo II na Lua e dos famosos passos de Buzz Aldrin e Neil Armstrong que fizeram história, a SpaceX, de Elon Musk, pode levar os Estados Unidos de volta à Lua. A NASA anunciou no final de maio que selecionou três módulos de pouso lunar para enviar material científico para a Lua em 2020 e 2021.

Os módulos serão lançados pela SpaceX e com a chegada dos equipamentos à Lua, a NASA prevê que dentro de cinco anos poderão enviar a primeira mulher e mais alguns homens ao satélite natural. Com a missão, a Agência Espacial Americana busca facilitar as próximas viagens para a Lua e Marte. A verdade é que mesmo 50 anos depois do homem pisar na Lua pela primeira vez, as viagens espaciais ainda são extremamente caras e tecnicamente complexas.

Ao longo dos últimos 20 anos, muitas empresas surgiram com a promessa de oferecer viagens à Lua e a possibilidade de viver em Marte, porém nenhuma delas conseguiu, de fato, tornar esse sonho humano em realidade. Até o momento, sete pessoas pagaram para ir para o espaço, como Dennis Tito, que foi o primeiro turista espacial em 2001, viajando para a Estação Espacial Internacional (ISS) por uma bagatela de 20 milhões de dólares. Depois disso, mais seis turistas espaciais voaram, mas o fluxo terminou em 2009.

Porém, todas essas viagens que ocorreram até o momento foram feitas em órbita baixa, a 2000 km da superfície da Terra. Ou seja, nenhum turista espacial chegou perto da Lua. Esses viajantes passaram dez dias ou mais na Estação Espacial Internacional (ISS), que é o único posto avançado permanentemente tripulado da humanidade, trabalhando ao lado de astronautas profissionais. Em 2025, após mais de duas décadas em funcionamento, a ISS será aposentada e a frequência de voos deve aumentar até lá.

Que tal passar as próximas férias no espaço?

Se tudo der certo, 2019 pode ser o ano em que, finalmente, as empresas privadas passarão a levar seres humanos para o espaço e isso seria um passo vital para tornar a experiência mais acessível. A Virgin Galactic é uma delas. Após realizar sua primeira viagem ao espaço no ano passado, agora a empresa pretende realizar mais voos de teste com a possibilidade de levar seus primeiros passageiros. Mais de 700 pessoas compraram ingressos com a empresa a um custo de 200 mil e 250 mil dólares. Cada voo contará com seis passageiros, que passarão por vários minutos de ausência de peso e terão incríveis vista da Terra enquanto o veículo espacial pula no espaço.

Outra empresa que espera chegar ao espaço neste ano é a Blue Origin, do CEO da Amazon, Jeff Bezos, que começará a vender seus ingressos nos próximos meses. Os preços devem seguir a média da Virgin. O número de passageiros por viagem também. Os passageiros poderão flutuar ao redor da cápsula do foguete por vários minutos, antes de retornar à Terra com um pára-quedas.

Hospedagem na Lua 

Se o transporte para o espaço não será mais um problema, como fica a hospedagem? O centro de astronautas da Agência Espacial Europeia, na Alemanha, pesquisa conceitos relacionados ao ambiente lunar Lua. Com o desafio Moon Village Association, a ESA busca desenvolver um conceito que funcione com a tecnologia existente e o conhecimento da Lua para construir habitações. O principal objetivo dos edifícios lunares será proteger os habitantes de condições externas que poderiam causar danos e criar um habitat que sustente a vida humana.

No entanto, existem outras condições importantes a serem consideradas no planejamento, como a luz solar, as mudanças de temperatura, o tipo de terreno e o nível de gravidade. Devido à falta de uma atmosfera protetora ou campo magnético, qualquer base lunar também deve proteger seus habitantes da radiação e minúsculos meteoritos que chovem no céu. Tudo levando em conta as possibilidades de um futuro na Lua.

Enquanto isso, a Orion Span está planejando a Estação Aurora, o primeiro hotel espacial de luxo do mundo, que começará a ser construída em 2021. A estação terá duas suítes privadas, com um total de quatro convidados e dois tripulantes por estadia. Os visitantes terão que passar por um treinamento de três meses para visitar a estação, sendo que originalmente o tempo de preparação era de 24 meses. Para passar 12 dias no espaço, o viajante terá que desembolsar 9,5 milhões de dólares, pelo menos metade do valor que os viajantes espaciais pagaram até então. Até o momento a startup não conseguiu levantar fundos suficientes para a construção do primeiro módulo.

A Roscosmos, a Agência Espacial Russa, tem um plano similar de construir um hotel de luxo no espaço. Os hóspedes do hotel terão quartos privados, instalações de higiene e médicas, bem como um lounge. Os preços variam de 40 milhões de dólares para estadias de uma a duas semanas a 60 milhões de dólares para uma estadia de um mês que incluiria uma caminhada espacial guiada por um cosmonauta.

De Shanghai a Nova York em 39 minutos – espacial sim, mas dentro da órbita

Nem todos os serviços espaciais estão focados em viagens para fora da órbita da Terra. Uma das grandes vantagens de voos espaciais da Terra para a Terra é reduzir o tempo de viagem, levando o passageiro de um ponto a outro no planeta em menos de uma hora. Essa seria uma revolução para o transporte aéreo possibilitado pela tecnologia de foguete reutilizável BRF da SpaceX. Essa tecnologia permitiria uma viagem de Nova York a Dubai em 39 minutos e de Bangkok para Dubai em 24 minutos. Tempo menor que a média da maior parte das viagens de metrô que muitos passageiros enfrentam diariamente para ir ao trabalho.

O foguete ainda está em estágio inicial de desenvolvimento, mas Elon Musk afirmou que o protótipo deve ser testado em 2019. Com esse prazo otimista, um voo orbital ao redor da Terra deveria ocorrer em 2020. Ainda não adianta se animar muito: para sair dos testes orbitais e chegar a voos comerciais Terra-a-Terra, devemos aguardar, pelo menos, algumas décadas. A SpaceX está realizando testes com os foguetes BRF e teve muitos avanços, porém ainda está longe de levar a tecnologia a estágio comercial.

A tecnologia de reuso de foguetes da SpaceX é um dos motivos pelos quais essas viagens seriam possíveis e também uma das razões para que o valor das viagens espaciais diminua. Segundo a SpaceX, as modificações feitas pela empresa em um de seus foguetes permitem que cada BRF 5 voe 10 vezes, ou mais, antes de precisar de reformas leves e até 100 vezes antes aposentadoria.

Caso você não tenha percebido pelos valores citados acima, viajar para o espaço não será nada barato. Dependendo do trajeto, um ingresso pode custar de 250 mil até dez milhões de dólares, preço já muito menor do que os valores pagos pelos primeiros turistas espaciais. Também muito menor do que o dinheiro gasto para colocar pessoas e cargas no espaço, que é de dez mil dólares por quilo.

A corrida espacial agora tem mais competidores

A gradual diminuição de valores  das viagens espaciais se deve ao crescimento de empresas privadas no setor e suas novas tecnologias. Sendo que as duas mais visadas para viagens espaciais e que já começaram a lançar astronautas em órbita são a SpaceX e a Boeing, que foram contratadas pela NASA para levar os tripulantes até a ISS. Por enquanto, as duas atuam apenas com missões contratadas, mas as empresas planejam pilotar seus próprios astronautas em uma tentativa de tornar o espaço mais acessível e abrir as possibilidades de voos turísticos. A SpaceX tem planos de levar viagens pagas à Lua em 2023 com um bilionário japonês e um grupo de artistas selecionados que deverão ser os primeiros viajantes privados além da órbita baixa da Terra.

A Índia também faz parte dos países que querem chegar até a Lua. A Organização Indiana de Pesquisa Espacial está se preparando para sua próxima missão lunar, com o Chandrayaan-2, com previsão de lançamento neste ano. O Chandrayaan-2 consistirá de um orbital lunar, que mapeará a lua a partir de uma altitude de 100 quilômetros e um módulo de aterrissagem, que deverá pousar próximo ao pólo sul lunar e posicionar um pequeno veículo espacial. Se a missão for bem-sucedida, a Índia se tornará um dos primeiros países a conquistar um pouso suave na Lua. O país também pretende se tornar uma das poucas nações a enviar seres humanos ao espaço usando seus próprios foguetes e espera seu primeiro voo tripulado para 2022.

A agência espacial do Estado da Rússia anunciou planos de enviar turistas ao espaço nos próximos dois anos. A rota deve ser a mesma do cosmonauta soviético Yury Gagarin, que fez história como o primeiro humano a orbitar a Terra quando passou 108 minutos no espaço em 1961. A Roscosmos assinou um acordo com a Space Adventures, empresa de turismo espacial dos EUA, para enviar dois civis para a Estação Espacial Internacional (ISS) até o final de 2021.
A partir de 2019 as viagens espaciais se tornarão mais frequentes, tanto dentro da órbita terrestre em direção a Estação Espacial Internacional, tanto com objetivo de chegar na Lua. O turismo espacial passa a ser mais realidade do que ficção. Será que já dá para planejar férias no nosso satélite mais próximo? Parece que para a próxima geração essa ideia irá além de um sonho.

 

 

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Robôs contra a fome: a agricultura 4.0 http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/05/23/robos-contra-a-fome-a-agricultura-4-0/ http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/05/23/robos-contra-a-fome-a-agricultura-4-0/#respond Thu, 23 May 2019 07:00:54 +0000 http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/?p=110 A população mundial segue em crescimento e nos faz questionar: como levar comida ao prato de todos os bilhões de moradores do planeta Terra? Os modelos agrícolas atuais já desmataram grande parte de nossas florestas e gastam de maneira exorbitante nosso recurso natural mais importante, a água. Dada a crise climática, não há mais como pensar em sistemas agrícolas que não contemplem a restauração do meio ambiente e que ao mesmo tempo nos dê o provento da terra. Existem diversas  soluções tecnológicas já comerciais, como o uso de robôs no cultivo e colheita de alimentos, que reduzem o uso de herbicidas, e as hortas verticais que buscam aproximar o alimento do consumidor, diminuindo o custo, tempo e impacto logístico. Será que elas serão o suficiente para colocar comida no prato de todos?

Segurança alimentar para um mundo em crescimento

Segundo projeções demográficas da Organização das Nações Unidas (ONU), até 2030 a população mundial chegará a 8,6 bilhões, um aumento de 1 bilhão de pessoas em pouco mais de uma década. É gente demais para comida de menos: de onde virão os alimentos para suprir uma necessidade tão grande? A pressão sobre os sistemas alimentares está cada vez maior e diversas alternativas têm sido cogitadas para a garantia da segurança alimentar da população mundial.

A segurança alimentar tem de ser pensada de maneira global para reduzir as desigualdades, mas ainda está distante de ser a realidade de muitas populações. Esse, aliás, não é um processo simples, pois envolve muito mais do que a plantação e colheita de alimentos. Os fatores envolvidos vão desde a redução de injustiças sociais, ao aumento do uso de processos ecológicos na produção agrícola, fomento de redes regionais de distribuição de alimentos, redução de resíduos e políticas de nutrição humana e produção agrícola.

De acordo com o relatório “Criando um Futuro Alimentar Sustentável”, produzido pelo World Resources Institute (WRI), é possível alcançar um futuro alimentar sustentável se as ações forem tomadas a tempo, em escala, com suficiente dedicação dos setores público e privado. O texto propõe um “menu para um futuro sustentável de alimentos”, concentrando-se em cinco pontos que visam: a redução no crescimento da demanda por alimentos; aumento na produção de alimentos sem expansão da terra agrícola; proteção e restauração de ecossistemas naturais; aumento no suprimento de peixes e redução das emissões de gases do efeito estufa da produção agrícola.

Se não parece um processo fácil, é porque realmente não é. Para alcançar um modelo mais eficiente de agricultura, são necessárias iniciativas privadas, políticas públicas, investimento em pesquisa e compromisso com a mudança. Algumas ações promissoras aparecem como maneiras de buscar soluções para um problema cada vez mais urgente.

Tecnologia para uma agricultura mais inteligente

Em um futuro mais próximo do que você imagina, a salada do seu prato virá de uma fazenda totalmente automatizada: plantada, cultivada e colhida por máquinas. A Universidade de Sidney desenvolveu uma série de robôs que prometem alterar a maneira como as fazendas funcionam: robôs com braços e “mãos” macias para colher frutos, com tesouras para aparar galhos e até máquinas que mapeiam ervas daninhas e as eliminam.

Uma utilização ainda mais óbvia de robôs na agricultura, e já bastante usada por fazendeiros hoje em dia, são os drones que oferecem economia de tempo e de mão-de-obra para a verificação visual de uma safra. Os drones equipados com câmeras multi-espectrais e fotográficas permitem monitorar o crescimento e prever rendimentos de culturas, além de transportar e distribuir cargas de fertilizantes ou de água.

Porém manter o modelo de produção que temos nos dias atuais não é o suficiente para suprir essa demanda de maneira sustentável. Afinal, a agricultura, ao lado da pecuária, é a maior consumidora de água do mundo. Para unir a tecnologia e o desenvolvimento sustentável, a Iron Ox criou uma fazenda hidropônica robótica que usa 90% menos água do que uma plantação comum. Em um ambiente totalmente controlado, sob luzes de LED, a empresa cultiva 24 variedades de verduras e ervas, como alface e manjericão.

A tecnologia utilizada pela Iron Ox é similar à de carros autônomos; por meio de sensores e visão computacional, o ambiente é monitorado em tempo de real para otimizar as condições de crescimento dos vegetais. Cada planta tem sua saúde verificada, como umidade, níveis de pH e nutrientes necessários e se algo estiver fora dos níveis normais, adiciona-se ou remove-se nutrientes. Segundo a empresa, realizar esse processo minucioso de plantação permite uma colheita 30% maior do que as plantações comuns.

Esse modelo de agricultura vertical e urbana é uma tendência para o futuro. Com ela, a comida fica mais próxima do prato do consumidor o que oferece produtos mais frescos, com mais qualidade, mais nutrientes e reduz o número de intermediários, dos processos logísticos e da emissão de gases no transporte de alimentos. Isso sem falar na redução drástica do desmatamento que ocorre para a instalação de grandes plantações em áreas rurais, que vem acabando com as florestas e com a vida animal.

A AeroFarms produz mais de 250 tipos de vegetais dentro de uma antiga arena de laser tag em New Jersey. Os canteiros ficam amontoados a mais de 9 metros de altura, em um espaço totalmente fechado. Condições que seriam consideradas absurdas para a saúde dos vegetais, de acordo com fazendeiros tradicionais ou de sua tia que ama plantas. Mas a AeroFarms descobriu uma maneira de cultivar os vegetais de forma por meio da técnica de aeroponia, que consiste essencialmente em manterem as plantas suspensas no ar, com a pulverização de nutrientes diretamente na raíz.

Esse processo utiliza 95% menos água do que uma plantação comum, além de não usar pesticidas e herbicidas. Ao invés de terra, as plantas crescem em um tecido reutilizável, feito a partir de plástico reciclado, e crescem sob luzes de LED. Outra vantagem: dessa maneira a AeroFarms consegue colher vegetais ao longo de todo o ano, todos com a mesma garantia de qualidade, já que fatores externos, como chuva, vento, sol e neve não podem afetar a produção.

Por falar em superar os fatores externos, Kimbal Musk, irmão de Elon Musk, criou um modelo de fazenda dentro de contêineres velhos. No estacionamento do Brooklin, a Square Roots cultiva diferentes tipos de vegetais utilizando luzes de LED, dentro de dez contêineres, e a mesma quantidade de água que usamos durante um banho. A temperatura é controlada, a água pinga com nutrientes nas plantas e depois é capturada e reutilizada.

Robôs para plantar, cuidar e colher

A FARMBOT também segue um modelo que promete gastar bem menos água do que as plantações comuns. Por meio de robôs controlados por computador de código aberto, o FARMBOT planta e rega as mudas de maneira minuciosa, sem gastar água no resto do solo. Cada plantinha é cuidada pelos robôs de forma automatizada e otimizada, visando suprir as necessidades das mudas específicas, o que possibilita a plantação de diferentes tipos de vegetais no mesmo espaço.

Mas o mais interessante, é que o usuário pode controlar os robôs por meio de um app no celular ou no computador, e projetar sua horta como em um videogame. Os softwares são gratuitos e podem ser alterados, de forma que as hortas são personalizáveis. São os robôs ajudando o pequeno produtor a cultivar vegetais no quintal de sua própria casa.   

Os robôs, com sua capacidade de trabalho simultaneamente abrangente e detalhada, têm tudo para mudar os processos agrícolas atuais. Hoje, por exemplo, muitos fazendeiros não conseguem levar seus negócios em frente porque o custo de investimentos em tratores é altíssimo. A Small Robot Company possui diferentes modelos de robôs que poderão substituir os tratores em um futuro bem próximo.

Alguns modelos podem colocar as sementes no solo, com espaçamento e profundidade ideais. Outro modelo é capaz de queimar ervas daninhas, com lasers ou eletricidade, bem diferente dos estabelecidos herbicidas. Um protótipo de monitoramento também está em pesquisa: equipado com câmeras ele corre para trás e para frente, coletando dados sobre as plantas e os convertendo em instruções para que os agricultores aumentem seus rendimentos e produzam alimentos de melhor qualidade.

A Ecorobotix também oferece uma máquina que faz capinagem de uma forma mais ecológica e econômica nas plantações em linha e culturas intercalares. A máquina é totalmente autônoma, pois funciona com tração solar durante 12 horas por dia sem a necessidade de um operador humano. Com uma detecção precisa, a máquina despeja o herbicida diretamente nas mudas que precisam, usando 90% a menos do produto.

Atividades antes consideradas impossíveis para sistemas mecanizados ganham alternativas robóticas. A colheitas de frutas e legumes delicados, como o tomate, já é realidade. A Root AI, uma startup de Massachusetts criou um robô agrícola que pode pegar tomates sem machucá-los e detectar a sua maturidade melhor do que olhos humanos.

Com tantas revoluções tecnológicas propostas, não é difícil ficar assustado e pensar que em pouco tempo seremos totalmente dispensáveis nos processos de produção de comida. Mas os humanos ainda têm papéis importantes a desempenhar nisso tudo: a logística de embalar, transportar, distribuir e comercializar ainda é totalmente humana.

Mas muito além disso, o ato de pensar no negócio da agricultura é uma tarefa fundamentalmente dos seres humanos, que robô nenhum pode realizar. Compreender as melhores maneiras de produção, buscar soluções para mitigar as desigualdades sociais, entender as necessidades das pessoas, dos alimentos e do planeta – tudo isso está sob nossa responsabilidade, mas agora podemos contar com uma “mãozinha” das máquinas.

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Enxames de motoboys-drone: o céu é o limite http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/05/09/enxames-de-motoboys-drone-o-ceu-e-o-limite/ http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/05/09/enxames-de-motoboys-drone-o-ceu-e-o-limite/#respond Thu, 09 May 2019 07:00:07 +0000 http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/?p=99 A Google conseguiu permissão para realizar entregas comerciais com drones em duas cidades americanas, sendo a primeira empresa a conquistar essa autorização nos Estados Unidos. Enquanto isso, a Amazon, que prometia esse serviço até o fim do ano passado, segue sem autorização para colocar seu Amazon Prime Air no ar. A conquista da Google pode representar o avanço da indústria de entregas com drones?  

Ainda assim, o que isso representa para nossas cidades? Pode ser que em poucos anos tenhamos um enxame de motoboys-drone passando por cima de nossas cabeças a qualquer hora, dia e noite. Questões como segurança, privacidade e, até mesmo, poluição sonora têm de ser consideradas antes que nosso céu esteja povoado por milhares de robôs de entrega.

Em breve: um enxame de drones bem perto da sua casa

É um pássaro? É um avião? Não! É o produto que você pediu sendo entregue por um drone na porta da sua casa. A Wing, subsidiária da Google, recebeu permissão da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) para realizar a entrega de pacotes aos clientes utilizando drones. A autorização do serviço nos EUA chegou logo depois da autorização concedida na Austrália e classifica a companhia como uma transportadora aérea de pequeno porte. As entregas utilizando drones devem ter início em alguns meses nas cidades rurais Blacksburg e Christiansburg, na Virgínia, por meio de parcerias com comércios locais.

A concessão da FAA é fundamental, pois não só permite que a Wing realize o serviço comercial de entregas, mas também que cobre por ele. O processo foi rigoroso e extensivo, com a criação de manuais, rotinas de treinamento e segurança que tiveram de ser adaptados das transportadoras aéreas tradicionais, já que drones não precisam de procedimentos envolvendo passageiros e comissários de bordo. A empresa acredita que com o desenvolvimento desse primeiro manual, muitas outras empresas de drones poderão candidatar suas aprovações à FAA. É um precedente regulatório que abre espaço para essa nascente indústria.

Quem não deve estar muito animada com a notícia é a Amazon, que tinha como meta iniciar suas entregas com drones até o final de 2018 e que, até o momento, ainda não oferece o serviço aos clientes. O Amazon Prime Air, um projeto ousado e inovador, foi anunciado pela empresa ainda em 2013 em um vídeo que mostrava a distribuição de pacotes utilizando os pequenos veículos aéreos.

No entanto, a Amazon ainda não possui permissão para entregas comerciais com drones, apenas em demonstrações privadas, e foi ultrapassada pela Wing, que em 2014 já completou suas primeiras entregas na região rural da Austrália. Mas tudo indica que a gigante do varejo on-line não ficará para trás por muito tempo: no mês passado a empresa estava contratando novos operadores de teste de drone em Cambridge para integrar o projeto Air.

A Amazon segue uma trajetória de aprimoramento de seus serviços de entrega ao longo dos anos. Se para os clientes comuns o serviço da empresa já garante as entregas mais rápidas, por meio do Amazon Prime os pacotes chegam às casas dos consumidores em apenas dois dias. Agora, a empresa promete que esse tempo de entrega vai cair ainda mais, garantindo entregas em um dia. O Prime Air seria o próximo passo nessa jornada, com entregas em 30 minutos.

Pequenos veículos aéreos, grandes distâncias –  em locais remotos, a diferença entre a vida e a morte

As entregas em tempo recorde vão, porém, muito além apenas da conveniência de comprar e receber produtos cada vez mais rápido. A empresa de logística americana UPS fechou parceria com a Matternet para fornecer amostras médicas para pacientes por meio de drones, acabando com as chances de atrasos nas estradas, aumentando a eficiência da entrega sob demanda e reduzindo os custos das entregas.  A parceria está em andamento para alavancar o uso de drones, expandindo o acesso à saúde para os moradores da Carolina do Norte. Um dos primeiros projetos pilotos para entregas de itens de saúde foi realizado no país africano do Malawi, em parceria com Unicef, no primeiro do mundo para entrega de kits de rápido diagnóstico de HIV. 

A Zipline, empresa de San Francisco, lançou há duas semanas um programa de fornecimento de suprimentos médicos por meio de drones em Gana. Trabalhando em parceria com o governo, a Zipline operará 30 drones de quatro centros de distribuição para entregar vacinas, sangue e medicamentos a duas mil instalações de saúde do país africano diariamente. Segundo o CEO da empresa, serão 600 voos por dia que atenderão 12 milhões de pessoas – tornando-se a maior rede de distribuição de drones do planeta, segundo o presidente do Gana, Nana Akufo-Addo.

A logística de entrega de órgãos para transplantes também é bastante complicada e a vida dos pacientes depende da agilidade no processo de transporte. Já existem projetos que utilizam drones como uma maneira de reduzir essas distâncias. Um time interdisciplinar da Universidade de Maryland criou, recentemente, um drone que obteve sucesso ao entregar um rim para transplante em um paciente com um longo histórico de problema renal. Pesquisadores, cirurgiões, especialistas em aviação e outros experts desenvolveram um sistema de monitoramento do órgão e um transportador que mantém o órgão em segurança ao longo da viagem.

Trânsito de drones 

Se há poucos anos os drones custavam caro e não eram de acesso ao grande público, hoje eles já são vistos voando por aí nas mãos de cinegrafistas amadores. Mas nenhum lugar do mundo é tão promissor para a pesquisa e o desenvolvimento da tecnologia de drones quanto a Suíça, que entre os institutos federais de tecnologia de Lausanne e Zurique possui o “Vale dos Drones”, com mais de 80 startups da área que geram cerca de 2.500 empregos na região. O sucesso no desenvolvimento de drones na Suíça se deve a diversos fatores, incluindo a as excelentes escolas de robótica do país, infraestrutura e programas de incentivo a projetos inovadores. O ambiente legislativo da Suíça também dá liberdade aos pesquisadores e o posto de pioneiro em drones deve ser mantido, se depender das iniciativas do governo federal.

O Escritório Federal de Aviação Civil suíço está trabalhando em uma revisão dos regulamentos existentes, enquanto isso a autoridade desenvolveu um método para avaliar os riscos ligados ao uso de drones, chamado de “avaliação de risco de operações específicas” (SORA), que também se destina a criar um registro dos equipamentos, permitindo que seus proprietários sejam localizados em caso de necessidade. Essas medidas não existem à toa, já que os pequenos veículos aéreos estão ocupando mais e mais espaço no céu suíço. Hoje, cerca de 22 mil máquinas são vendidas anualmente e cerca de cem mil já estão em operação no país europeu.

Aqui no Brasil, a quantidade não chega nem perto disso, mas está crescendo: segundo dados do sistema SARPAS (Solicitação de Acesso de Aeronaves Remotamente Pilotadas), o Brasil conta com um total de 18.951 pilotos e 14.161 aeronaves. Mesmo com essa quantidade bem menor, já tivemos iniciativas inovadoras bem perto de nós. Em 2014, uma pizzaria de Santo André, na região metropolitana de São Paulo, testou entregar pizzas utilizando um drone. A ideia foi inspirada pelo anúncio do serviço Amazon Prime Air e na busca por entregas mais rápidas que batessem o tempo de 30 minutos ou menos da Domino’s.

A entrega da pizza foi realizada para uma cobertura nas imediações da pizzaria, com um tempo de apenas cinco minutos de voo, quase metade do tempo que uma moto levaria, de acordo com o estabelecimento. Na época, o pequeno teste da pizzaria não foi bem visto pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e pela Força Aérea Brasileira (FAB), que não haviam sequer sido procuradas pelo estabelecimento. A legislação específica para voos com drones só foi criada no Brasil alguns anos depois, em 2017.

Os aplicativos de entrega já atingem patamares altíssimos nas grandes cidades, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) o mercado de apps de entrega faturou mais de R$ 10 bilhões no País em 2017. Se em 2014 esse teste já era uma experiência interessante, atualmente as entregas com drones poderiam tomar proporções gigantescas ao redor do mundo inteiro, povoando nosso céu com enxames de motoboys-drone. Mas quem ganha com isso? Será que queremos mesmo viver em um mundo em que os pequenos veículos estão zunindo constantemente sobre nossas cabeças?

Não há dúvidas de que os drones têm a capacidade de ajudar muitas pessoas e até facilitar as nossas vidas, mas é preciso pensar a respeito das implicações desse novo mercado. Segurança, privacidade, bem-estar: tudo isso está em jogo quando falamos de veículos que podem chegar a praticamente qualquer lugar, a qualquer horário. Talvez acabemos escolhendo a conveniência dos drones, mas qual é o custo para todos da entrega mais rápida das nossas compras on-line?

 

 

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Talvez seu próximo tênis já tenha sido uma garrafa plástica http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/04/25/talvez-seu-proximo-tenis-ja-tenha-sido-uma-garrafa-plastica/ http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/04/25/talvez-seu-proximo-tenis-ja-tenha-sido-uma-garrafa-plastica/#respond Thu, 25 Apr 2019 07:00:53 +0000 http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/?p=80 Em menos de um século de existência, o plástico se tornou um dos materiais de maior importância para a vida humana. Da escova de dentes utilizada de manhã às embalagens de comida que consumimos à noite: praticamente tudo contém plástico. No entanto, o material não “desaparece” de maneira tão rápida quanto a sua fabricação, utilização e descarte. A reciclagem, sozinha, não deu conta do volume assustador de plástico que consumimos – na primeira década do século XXI foram produzidos mais plásticos do que em todo o século XX. Vivemos uma verdadeira crise global. Terra e água estão contaminados com microplásticos, o que já coloca em risco a vida de animais, seres humanos e o futuro do planeta. Apesar do cenário catastrófico, soluções estão em desenvolvimento ao redor do mundo: proibir o plástico, reutilizá-lo, substituí-lo. Será que vamos conseguir evitar o tsunami de microplásticos?

Onipresente

Em 1907, quando o químico belga Leo Baekeland criou o primeiro plástico totalmente sintético da história, o Bakelite, provavelmente não tinha ideia de que essa invenção tomaria a proporção que atingiu, muito menos de seus malefícios ao planeta e às diversas formas de vida. Muitos anos e milhares de variações de novos materiais sintéticos depois, esse componente faz parte de cada etapa de nossas rotinas, presente mesmo onde não percebemos e, principalmente, onde não deveria estar. Até nossa comida está temperada com os microplásticos.

Quem utiliza as redes sociais com frequência, provavelmente acompanhou toda a discussão do carnaval ao redor do glitter e seus perigos para o meio ambiente. O glitter biodegradável chegou para salvar o dia, mas o que escapou da percepção dos foliões é que a poluição por microplásticos vai muito além do período carnavalesco. Pesquisadores descobriram que pedaços de plástico do tamanho de grãos de arroz estão presentes em todos os dez lagos, rios e reservatórios analisados no Reino Unido, com mais de mil pequenos pedaços de plástico por litro no rio Tâmisa, próximo a Manchester.

É claro que essa quantidade enorme de plástico em partículas tão pequenas causa danos muito além do que podemos ver a olho nu. Se a imagem de tartarugas engasgadas com sacolas plásticas ou com canudos já não for perturbadora o suficiente, tente imaginar o estômago de um animal repleto de pedacinhos de plástico. Pois é, e esses materiais já foram encontrados dentro de todos os mamíferos marinhos estudados recentemente no Reino Unido.

Mas além dos prejuízos aos animais, essas partículas causam problemas sérios à saúde dos humanos. Ingeridas, podem danificar órgãos e liberar substâncias químicas perigosas, como o bisfenol A (BPA), que causa disrupção hormonal, ou pesticidas, que podem prejudicar o sistema imunológico e impedem o crescimento e a reprodução. O microplástico conta, ainda, com bactérias que podem causar infecções. Uma pesquisa da Universidade Nacional de Cingapura encontrou mais de 400 tipos de bactérias em 275 pedaços de microplástico coletados em praias locais. Tanto o microplástico, quanto esses componentes, têm a capacidade de se acumular na cadeia alimentar e prejudicar ecossistemas inteiros. Eles podem estar nos alimentos que colhemos do solo, na carne animal que consumimos, na água que bebemos e no ar que respiramos. Não dá para fugir mais.

Banimento global

Segundo estimativas do Fórum Econômico Nacional, existem cerca de 150 milhões de toneladas de plástico nos mares do mundo. Se já não fosse o bastante, uma pesquisa publicada na Science em 2015 sugere que entre cinco e treze milhões de toneladas a mais estão chegando aos oceanos todos os anos. Se o plástico é tão presente em nosso dia a dia, será que podemos reduzir esse fluxo que leva à poluição de nossos mares e solo?

Para uns, a proibição do uso de plástico descartável é o caminho mais seguro para reduzir os níveis de contaminação causados pelo material. O Parlamento Europeu aprovou uma lei que proíbe uma vasta gama de artigos descartáveis, como talheres e hastes flexíveis, como canudos, até 2021. Ao todo, serão dez itens de plástico de uso único que serão proibidos na Europa para conter a poluição do oceano. A lei é ambiciosa e prevê também uma meta de coletar e reciclar 90% das garrafas de bebidas até 2029.

Em uma abordagem parecida, a Índia pretende eliminar plásticos descartáveis, como copos, pratos e talheres, até 2022. Em Mumbai, a lei proíbe a fabricação, comercialização e uso de utensílios de plástico de uso único. E a punição é tão dura quanto a proibição: quem for visto utilizando os itens proibidos pagará multas de 5000 rúpias (equivalente a R$290,00), se for o primeiro delito, e 25000 rúpias (R$1430,00) e três meses de prisão em caso de reincidência.

Nova York segue com uma proposta um pouco mais branda, com a proibição estadual à maioria das sacolas plásticas de uso único das vendas no varejo, seguindo o modelo da Califórnia e do Havaí. Os compradores poderão optar por pagar uma taxa de cinco centavos em sacolas de papel, receita que seria destinada ao Fundo de Proteção Ambiental do estado.

Um plástico que nunca mais será lixo

Mas muito mais urgente do que a simples proibição de plásticos, que será limitada a alguns itens, e provavelmente não terá a escala necessária, é uma nova abordagem para lidar com o material. Se temos a capacidade de reciclar, por que não fazer com que o plástico jamais tenha a necessidade de descarte? Pensando dessa forma, a Adidas desenvolveu o Futurecraft Loop, um tênis que pode ser totalmente reciclado em novos sapatos. Este é o primeiro tênis para corrida de desempenho projetado para um ciclo de vida circular: se o tênis está muito desgastado ou se você se cansou dele, basta devolver à Adidas e ele será reciclado. 100% do sapato já é reciclável, e apesar de um tênis reciclado ainda não ser suficiente para produzir um item novo com a mesma performance, a empresa visa melhorar esse processo, até o lançamento global do produto em 2021.

Além da Adidas, a marca novaiorquina Rothy’s e a também norteamericana Nike produzem sapatos leves com fibras de plástico descartado.

Para avançar nas aplicações de plásticos pós-consumo, podem ser usadas combinações de materiais para filamentos de impressão 3D, como é o caso dos produtos desenvolvidos pela startup brasileira PrintGreen3D que utiliza materiais descartados pela indústria, como garrafas PET, copos descartáveis e outras embalagens plásticas. E dá para chegar ainda mais longe: utilizando a impressão 3D, o casal Virginia San Fratello e Ronald Rael vive em uma casa feita com materiais alternativos, como casca de uva, serragem e cimento. Pioneiros na tecnologia, o casal desenvolve técnicas mais sustentáveis para construções, muitas vezes utilizando materiais de baixo custo, numa gama que vai de lama a palha de café. A combinação dos filamentos de recicláveis e seus possíveis usos na construção civil tem um potencial enorme de economia de recursos, já que para construir uma casa de 50 metros quadrados são usados mais de 10 toneladas de materiais em volume.

E não é apenas no setor da moda ou nas aplicações industriais que a questão dos microplásticos está sendo combatida com a criação de produtos à base de matérias-primas alternativas. Os brinquedos infantis também podem ser sustentáveis, como é o caso do Twist Teether, da americana Green Toys, que é feito com plástico reciclável, livre de BPA, ftalatos e PVC, e impresso com tintas de soja.

A gigante Lego também está seguindo a tendência de materiais sustentáveis, por meio do desenvolvimento de brinquedos feitos com plástico proveniente de cana-de-açúcar. A iniciativa é parte da promessa da empresa de utilizar materiais sustentáveis nos produtos e embalagens até 2030. Segundo a Lego, o material vem de uma fonte renovável e segue altos padrões de qualidade e segurança.

E se a maior parte dos microplásticos está nos oceanos, retirá-los de lá para fazer produtos que não voltarão para o mar é uma das maneiras mais eficientes de resgatar a vida marinha. O esfregão Positiva é um exemplo de como produtos que normalmente seriam descartados podem cumprir novas funções. Feito com redes de pesca industrial de poliamida, utilizadas por pescadores de Santa Catarina, o esfregão ecológico dura por tempo indeterminado e não libera microplásticos por, pelo menos, seis anos de uso.

Após todo esse período de utilização para limpeza, o esfregão ainda pode ser reciclado. A Positiva também conta com uma gama de produtos biodegradáveis, veganos e hipoalergênicos, todos armazenados em embalagens produzidas a partir de plástico reciclado, coletado no litoral.

Lixo é um erro de design

A produção de lixo nos níveis atuais não é apenas prejudicial ao meio ambiente, mas também representa um alto custo às empresas, uma vez que os recursos não são utilizados em todo o seu potencial. No exemplo da PrintGreen3D, por meio dos “restos” industriais nascem inúmeras oportunidades de produção e desenvolvimento de produtos.

Mas para que isso aconteça, é preciso que as empresas repensem seus processos e busquem parcerias com desenvolvedores de soluções alternativas. Existem centenas de empresas que utilizam materiais naturais para substituir o plástico. É o caso, por exemplo, da Ecovative que desenvolve embalagens compostáveis a partir do micélio, estrutura das raízes de um cogumelo, e resíduos agrícolas não alimentares. O micélio age como uma cola natural que une partículas de forma que a embalagem se torna tão isolante e resistente ao fogo quanto o poliestireno, apesar de se decompor em apenas uma semana. A ideia estranha de usar cogumelos como embalagem tem feito sucesso, tanto que as gigantes Ikea e IBM deixaram o isopor de lado e agora utilizam as embalagens da Ecovative.

Outro bom exemplo é a brasileira Oka Biotecnologia, que utiliza matérias-primas renováveis, como mandioca, para produzir embalagens biodegradáveis. Totalmente compostáveis e biodegradáveis, as embalagens da Oka ainda podem se tornar ração ao fim do uso. Os produtos também podem ser aquecidos, não contêm glúten e vêm com uma cinta de papel semente que se transforma em uma muda de manjericão.

A solução também pode ser mais simples, vinda de materiais já existentes, comuns ao nosso dia a dia – a Diageo, produtora da Guinness, deixará para trás os anéis plásticos flexíveis que eram utilizados para manter as latas juntas e adotará caixas de papelão. Nesse movimento, a empresa reduzirá cerca de 400 toneladas de resíduos plásticos por ano e segundo a Diageo esse peso é o equivalente à quantidade de plástico utilizada para fabricar 40 milhões de garrafas de bebidas de 500mL. A empresa também se comprometeu a comprar toda a celulose usada para a produção das embalagens de papelão a partir de fontes sustentáveis.

Por falar em soluções tradicionais, as já conhecidas garrafas de refrigerantes reutilizáveis ganharam uma abordagem mais arrojada. A Loop é uma empresa que visa à redução de lixo em produtos de consumo, como sorvetes, desodorantes, cápsulas de café, entre outras dezenas de itens que encontramos nos supermercados. Por meio de embalagens reutilizáveis de alta qualidade, produzidas com aço e vidro, o serviço on-line da empresa possibilita que os clientes realizem a compra dos produtos no site, os utilizem até o fim e devolvam as embalagens. Os containers são higienizados e reutilizados, criando um ciclo renovável e sem lixo. A volta do “homem do leite”, que trazia e levava garrafas de vidro às nossas casas pela manhã, ganha sua versão digital.

Não é um desafio simples. Se por um lado, algumas empresas e cidades buscam soluções para a onipresença do plástico, por outro a produção e descarte de plástico seguem em constante crescimento. Quem ganhará a corrida: as montanhas de plástico descartável, ou a criatividade e engenhosidade humanas? Quem sabe sua próxima garrafa plástica de água vai virar um tênis. Esperamos que ela não tenha nem de ser produzida.

 

 

 

 

 

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Vai um bife que nunca mugiu no seu próximo churrasco? http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/04/11/vai-um-bife-que-nunca-mugiu-no-seu-proximo-churrasco/ http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/04/11/vai-um-bife-que-nunca-mugiu-no-seu-proximo-churrasco/#respond Thu, 11 Apr 2019 07:00:58 +0000 http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/?p=51 Hambúrguer de carne que não foi feita a partir de animais. Sashimi de atum cru que nunca foi um peixe. Maionese que não leva nenhum ovo. Todos com o mesmo sabor, textura, umidade. A revolução da comida bio fabricada começa a tomar proporção e chegar aos supermercados, restaurantes e à dieta das pessoas. Além do fato de agradar os que defendem o fim da exploração animal, será que existem outros benefícios em sua produção, e quais seus potenciais problemas?

É possível que os impactos econômicos gerados na indústria da carne sejam irreversíveis, e que os custos ambientais dessa nova tecnologia não sejam assim tão baixos como se anda prometendo. O seu próximo bife pode ter sido um punhado de células tronco que cresceram in vitro em uma fábrica e tem cheiro e sabor de carne. Ou uma base vegetal que tem todas as características de um suculento bife mas que nunca sequer andou por um pasto ou sequer esteve vivo. A bioengenharia chegou aos nossos pratos, mas o que isso quer dizer para nós e para o planeta?

Carne vegetal que sangra e tem até sabor de… carne  

Na semana passada, quando o Burger King anunciou que lançaria nos Estados Unidos uma versão do tradicional hambúrguer Whopper, elaborado com carne feita de plantas, houve comoção de importantes atores do mercado de carnes norte-americano. O presidente da associação norte-americana dos produtores de gado afirmou que jamais provaria esse tal de Impossible Whopper, pois estes não seriam feitos de carne real. Tudo indica que essa reação da indústria seria um importante sinal de que a carne de laboratório começou a ganhar confiança e espaço nos pratos dos consumidores podendo, de fato, ameaçar os produtores de carne proveniente de animais.

Já o Burger King afirma ter feito testes cegos com seus funcionários e que ninguém percebeu a diferença entre o Whopper antigo e o novo. Vários avaliações de sites especializados em alimentação e gastronomia dizem o mesmo: é impossível distinguir entre um produto e o outro. A cadeia de fast food, que já oferecia opções vegetarianas em seu cardápio há anos, vê no novo sanduíche uma opção mais atrativa para os consumidores que têm uma dieta composta exclusivamente de alimentos de origem não-animal.

O Impossible Whopper foi criado através de uma parceria com a startup de biotecnologia californiana chamada Impossible Foods, que fabrica substitutos de carne. Ele foi projetado para sangrar tal qual um hambúrguer convencional. Afinal, o que são e como são feitos essas tais carnes de planta ou carnes cultivadas in vitro?

A tecnologia por trás da agricultura celular

Os substitutos artificiais da carne são chamados também de carne artificial, carne cultivada, carne in vitro ou também de carne de laboratório. A nomenclatura varia bastante de acordo com os materiais por trás da manufatura. A princípio, são duas as tecnologias: a carne fabricada com células animais e a carne fabricada com células vegetais. Existem processos bastante diferentes entre si para criar os produtos finais, alguns dependentes de engenharia genética, outros que utilizam proteínas da soja, e outros ainda que se utilizam de células tronco de animais. O que é comum a todos eles é o fato de não utilizarem o corpo de animais vivos para a confecção dos produtos  e que ao invés disso, cultivam somente as células em laboratório. Este processo também tem sido conhecido como agricultura celular.

O pioneiro da indústria e criador do primeiro hambúrguer de laboratório foi o professor da Universidade de Maastricht e fundador da empresa Mosa Meat, Mark Post, que em 2013 introduziu o Google-burger ao mundo. O hambúrguer foi assim batizado pois sua pesquisa e concepção foram fruto de um investimento de Sergin Brin, fundador do gigante de tecnologia Google. Para fazer o hambúrguer, 20.000 células de fibra muscular bovinas foram cultivadas em laboratório. Após sua produção, foram então comprimidas, e passaram por um processo de coloração com suco de beterraba e açafrão, que as deixaria com um aspecto mais parecido com a carne de vaca convencional. Na época, o custo de produção de apenas um hambúrguer seria de 250.000 dólares, hoje já está em menos de 10 euros por hambúrguer.

Já os produtos da Impossible Foods, empresa que fez a parceria com o Burger King, utiliza uma tecnologia diferente. Seus hambúrgueres são feitos a partir de uma base vegetal que leva “heme”, uma proteína rica em ferro que confere à carne o sabor que conhecemos. A produção do “heme” é feita através da modificação genética de um tipo de fermento, adicionando a este o DNA da hemoglobina de soja.

Não só de hambúrguer se faz uma dieta

Além da Impossible Foods e Mosa Meat existem várias outras empresas na corrida pelo mercado das carnes alternativas. Essas empresas miram um mercado muito maior que o do hambúrguer. A Beyond Meat, que tem como um de seus investidores Bill Gates, tem seu hambúrguer em prateleiras da rede Whole Foods nos Estados Unidos desde 2013 e a partir de 2019 passou a comercializar produtos substitutos de frango e salsicha de porco. A empresa afirma ter mais de 27 mil pontos de distribuição e que atua, além dos Estados Unidos, no Reino Unido, União Européia e Israel.


A JUST (antes chamada de Hampton Creek), empresa avaliada em mais de 1 bilhão de dólares, criou nuggets de frango, que estão atualmente disponíveis em alguns restaurantes de São Francisco, na Califórnia e em Hong Kong. Além do frango, a JUST criou a primeira mistura para ovos mexidos baseada em células animais que não saíram de uma galinha. Outros produtos da empresa incluem maionese e o bife japonês Wagyu.

É possível também fabricar em laboratório outras carnes além das de mamíferos e aves. Peixe, parte importante da dieta humana, também está na mira das startups e é uma das maiores promessas da nascente indústria de carnes alternativas. A piscicultura é uma atividade com altos danos ambientais e os peixes marinhos correm grandes riscos de contaminação com mercúrio e outros materiais tóxicos.

Por isso a empresa Ocean Hugger criou um sashimi de atum, chamado Ahimi, feito de tomates e outros vegetais. A nova iorquina Finless Foods, também especializada em peixes, está iniciando sua trajetória investindo na criação de um substituto para o Atum Rabilho, ameaçado de extinção por práticas de pesca predatórias.

Os desafios da comercialização em escala 

A cultura de células em laboratório, até o presente momento, é um processo caro e que tem como produto final um pequeno número de células, o que quer dizer pequenos pedaços de carne muito caros. Talvez seja este o maior desafio das startups: estabelecer um processo produtivo industrial para a cultura de células em laboratório, que lhes de escala comercial e preços mais competitivos.

Para além da otimização do processo industrial, a tecnologia precisa dar conta de não utilizar mais sérum na produção. Sérum é o componente indutor de crescimento usado para alimentar as células durante o cultivo, e este material é atualmente obtido de sangue de fetos bovinos retirados de vacas que foram mortas pela indústria pecuária.

A atual utilização de sérum animal fere os princípios éticos de uma comida que não se propõe a não praticar crueldade animal, e também faz com que os custos de produção sejam extremamente elevados. A startup Finless Foods é uma das que está estudando alternativas ao sérum, feitas a partir de fermentação microbial e outras com extratos de algas.

Mesmo com alguns testes apresentando os substitutos como quase indistinguíveis da carne que cresceu a partir de um bovino, ao menos nos hambúrgueres, o sabor perfeito pode ainda não ter sido alcançado para todas as carnes in vitro. Uma dos principais avanços para melhor a experiência gastronômica seria adicionar células de gordura ao tecido muscular, na forma de uma marmorização. Assim, seria possível a produção de outros “cortes” mais sofisticados de carne, como o filet mignon, por exemplo.

Mais saudável, com menor pegada ambiental mas recheada de controvérsias

Uma das principais razões para se deixar de comer carne bovina seria o fato de que o consumo deste tipo de carne estaria associado a uma série de doenças, como diabetes, doenças vasculares e cânceres. Alguns dos substitutos para a carne bovina se apresentam mais saudáveis, pois se mostram menos gordurosos, contendo 90% menos de colesterol como é o caso do Impossible Whopper.

Além disso, a produção de carne é uma das atividades econômicas que mais contribuem para a mudança climática. Em contraste, a produção das carnes baseadas em plantas e in vitro produziriam apenas uma fração dos gases gerados na pecuária, porque não utilizam animais adultos, que liberam metano como subproduto de sua digestão. A água, que também figura como significativo problema ambiental associado à produção de carne, teria seu consumo reduzido a menos de 15% dos números atuais, se adotássemos as carnes de laboratório.

Algumas críticas têm sido feitas às carnes de laboratório. O uso de fermento geneticamente modificado, soja processada e até o teste dos produtos em ratos são algumas delas. Fazendeiros norte-americanos também estão fazendo oposição sistemática às empresas de carne de laboratório. Há algumas semanas, pressionando os legisladores, conseguiram a aprovação de leis estaduais nos Estados Unidos proibindo os produtos de serem colocados ao lado da carne tradicional nos supermercados e de serem chamados pelo mesmo nome.

O que esperar do futuro

O caminho para a democratização das carnes de laboratório não parece ser tão longo, apesar dos obstáculos iniciais que este caminho oferece. Em 2019, já se apresenta como uma indústria de 1,5 bilhão de dólares. Nada mal para um setor com menos de 10 anos de existência.  

Se essas startups conseguirem ser bem sucedidas em massificar os substitutos de carne, talvez elas sejam os maiores colaboradores para a cadeia produtiva global de comida desde a revolução verde da década de 70. As questões ambientais, de segurança alimentar e crescimento populacional que enfrentaremos nas próximas décadas precisarão de soluções muito inovadoras como estas. Agora, é torcer para que consigam financiamento para construir suas fábricas, aprovação regulatória e aceitação do consumidor necessários para crescer. Vai um bife que nunca mugiu no seu próximo churrasco?

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Automóveis: carros elétricos, autônomos, ambos ou um futuro sem carros? http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/03/28/automoveis-carros-eletricos-autonomos-ambos-ou-um-futuro-sem-carros/ http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/03/28/automoveis-carros-eletricos-autonomos-ambos-ou-um-futuro-sem-carros/#respond Thu, 28 Mar 2019 07:00:51 +0000 http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/?p=37 O futuro da mobilidade urbana passa pela adoção de uma série de novas tecnologias e outras tantas que já não são tão novas assim. Faz algumas décadas que acreditamos na transição para carros elétricos como o futuro certo dos automóveis. Altos custos dos combustíveis fósseis, tanto ambientais como financeiros, fariam dessa “novidade” uma mudança necessária. Além dos elétricos, os veículos autônomos despontam como alternativa para uma vida urbana mais conveniente. Porém, os carros não são mais a única opção para se transportar: será que eles resistem a um maior acesso aos diversos modais de transporte – até mesmo patinetes, inimagináveis como transporte há apenas 5 anos?

 

Carros elétricos

Mesmo com a mudança climática batendo à porta, ainda não vemos nas ruas os carros elétricos com tanta frequência –  com exceção de uns poucos híbridos e alguns modelos de luxo. Onde será então que estão os tão esperados elétricos?

Uma das respostas possíveis é: no passado. É bastante curioso, mas os carros elétricos não são uma tecnologia nova. Estamos tão acostumados com os motores à combustão que muitas vezes não temos ideia de que os elétricos vieram antes daqueles que queimam derivados de petróleo. Os primeiros protótipos de carros elétricos foram criados no início dos anos 1800, juntamente com as baterias e o motor elétrico.

 

 

Em 1890 havia dez vezes mais carros elétricos vendidos do que à gasolina, e acredite, também havia carros a vapor competindo por uma fatia do mercado. Foi então que os métodos de produção em massa chegaram e com eles o declínio dos automóveis movidos a eletricidade. A produção em linha do Ford Modelo T, à gasolina, aliada ao crescimento da importância econômica desse combustível e de outros derivados do petróleo, proporcionou uma vantagem competitiva aos modelos de combustão, deixando os elétricos para trás.

A limitada infraestrutura elétrica também era um problema. Se ainda hoje não temos muitos locais disponíveis para carregar os carros, mesmo como a possibilidade de se fazer isso em casa ou no trabalho, imagine no começo do século XX quando não havia redes de energia.

A outra resposta possível para o paradeiro dos carros elétricos é: em um futuro próximo. Tudo indica que muitos outros surgirão para dominar as cidades na próxima década, além dos vários modelos já disponíveis em nossas ruas. Além da Tesla, que detém 12% dos carros de passeio no mercado global, há outras marcas disponíveis, e empresas como Hyundai, Audi, Volkswagen, e muitas outras planejam lançar modelos para o final de 2019.

Estimativas são de que os fabricantes de automóveis tenham se comprometido a gastar ao menos 90 bilhões de dólares na fabricação de carros elétricos, com apenas 19 bilhões desse montante vindo dos Estados Unidos, e a maior parte do investimento vindo da China.

 

 

Em contraponto à crescente expansão da indústria de elétricos, uma das principais barreiras à adoção dessa tecnologia é o custo de transição de um carro à combustão para um elétrico. Para resolver essa questão, no Canadá, o Ministro de Finanças anunciou na segunda semana de março que irá conceder um subsídio de 435 milhões de dólares canadenses para a compra de veículos elétricos.

Já no Reino Unido, o governo lançou uma estratégia que pretende fazer com que ao menos 50% dos veículos adquiridos sejam de “ultra baixa emissão” até 2030. Até 2040, a venda de carros a gasolina e diesel estará banida, e para que isso aconteça o governo irá investir até 1 bilhão de libras em inovação energética. Além disso, novas residências podem em breve ter como requerimento de construção a instalação de carregadores para veículos elétricos. Neste mesmo plano, o governo britânico, anunciou que está lançando um fundo de 400 milhões de libras para investir na construção de estações de carga para elétricos.

Os investimentos e subsídios públicos para essa tecnologia são extremamente importantes para que ela seja adotada de forma definitiva. Não esqueçamos que foi justamente a falta destes instrumentos que fez com que os carros elétricos ficassem fadados ao esquecimento na grande maioria do século XX.

 

 

Carros autônomos

A outra promessa para a mobilidade, que parece ter saído dos filmes de ficção científica, são os carros autônomos: o quão distante estamos deles? A chegada da tecnologia tem sido constante e através de diversos projetos, o que torna mais difícil ver seu progresso. Alguns destes são liderados por gigantes da tecnologia, como Google, alguns por startups, como a Zoox, enquanto outros foram iniciados por tradicionais fabricantes de carros, como a BMW.

O que são e como funcionam os carros autônomos, afinal? São veículos automotores – o que quer dizer que podem ser elétricos, à combustão ou hidrogênio – que contam com um sistema de controle avançado capaz de interpretar informações vindas dos sensores, radares e mapas para identificar os padrões de navegação corretos, bem como obstáculos e sinalizações relevantes. Esse sistema de controle, geralmente, tem por trás um computador e um software de inteligência artificial.

 

 

Para que tenhamos carros autônomos como força motriz da mobilidade urbana, é preciso que eles passem por inúmeros testes e possam ser totalmente autônomos e seguros, não necessitando de intervenção humana nem em casos extremos de perigo. Foi só no último mês de dezembro (2018) que tivemos esses carros disponíveis comercialmente.

O primeiro deles foi o serviço de táxis robóticos da Waymo, empresa do grupo do Google, lançado no Arizona. O serviço permite que os usuários participantes do experimento chamem um carro através de aplicativo Waymo One, recebem uma estimativa do preço, e sejam conduzidos até onde precisam ir. Inicialmente, há uma pessoa atrás do volante apenas para dar mais conforto ao usuário, não sendo necessária a supervisão do veículo, segundo a empresa.

Outras versões menos avançadas da tecnologia já podem ser observadas em veículos comerciais, como os Tesla, Cadillac SuperCruise e Nissan ProPilot Assist. Eles contam com um sistema de piloto automático, em que o veículo é guiado pela pista sem o motorista ter a obrigação de estar com as mãos no volante.

 

Para que as pessoas confiem nesta forma de transporte e os autônomos se tornem realmente seguros, é preciso muitas horas de treinamento para que a inteligência artificial do veículo saiba o que fazer em cada cenário possível que se apresenta, em tempo real. Isso apresenta um desafio pros computadores, que não são especialmente bons na tomada de decisão em tempo real, inclusive em situações ambíguas e com danos potenciais.

Impacto na vida urbana

Em se tratando de elétricos e autônomos, podemos perceber que eles estão apenas há alguns anos de compartilhar as ruas com os demais veículos e pedestres, então qual será o impacto de ter essas novas tecnologias no cotidiano da vida urbana?

A maior mudança que o carro elétrico promove está na sua fonte de energia, que por não precisar mais de combustíveis fósseis, tem menor impacto ambiental e menor custo a longo prazo para os usuários. No entanto, o seu modo de uso não se altera. Um carro elétrico continua sendo um carro, que precisa ter o tanque cheio – de eletricidade – , um motorista para guiar e ruas para rodar. A consequência mais próxima, nesse caso, é que os postos de combustível tradicionais se tornarão obsoletos, além claro, da melhora geral do nível de poluição do ar nas cidades.

 

 

Já quando falamos sobre o carro autônomo, podemos levar em consideração não apenas o veículo em si, mas todo o ecossistema que orbita em torno dos carros – e motoristas. Estacionamentos próximos a locais movimentados já não serão necessários, uma vez que o carro pode parar longe do passageiro e só voltar para buscá-lo no horário programado, calculando o tempo de deslocamento em tempo real. Talvez o carro que venha buscar o passageiro não seja o mesmo que o trouxe, pois este foi alugado em um serviço de corridas, como o Uber, só que sem motoristas. Além disso, o próprio urbanismo das cidades pode ser alterado. Áreas antes pouco valorizadas, onde não havia sequer transporte público, seriam alvos de especulação imobiliária, já que o acesso ao transporte se multiplicaria.

Será que carros são mesmo o futuro da mobilidade? Apesar dos crescentes avanços na tecnologia para os automotores, há diversas outras opções de transporte de passageiros em ambiente urbano. Além dos carros, outros tipos de veículos elétricos já estão disponíveis no mercado, como ônibus, que na China representam 3% da frota desse modal no país. Os próprios veículos autônomos também existem na versão coletiva, como o simpático Muji, lançado este mês na Finlândia. Outros testes com transporte coletivo autônomo estão sendo feitos na Alemanha, Holanda e Singapura.

 

 

Além do transporte coletivo, a maior concorrência aos carros pode estar na micromobilidade – que traz alternativas mais baratas e convenientes para percorrer curtas distâncias. Transportar-se usando bicicletas e patinetes é uma tendência em muitas grandes cidades. É quase impossível passear por um grande centro sem ver um patinete disponível na calçada.
Compartilhamento de carros, aluguel de scooters elétricas e transporte público autônomo  são apenas algumas das muitas formas de acessar a mobilidade. Em um futuro não muito distante com cada vez mais opções, mais convenientes e baratas, talvez os carros deixem de ser desejados pela maioria das pessoas e passem a não ser mais elemento essencial da vida urbana. Será que se você pudesse se transportar para onde e quando quiser, com conforto e segurança, ainda precisaria possuir um carro?

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Mudanças no DNA: melhorar a humanidade ou destruir seu legado genético? http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/03/14/mudancas-no-dna-melhorar-a-humanidade-ou-destruir-seu-legado-genetico/ http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/2019/03/14/mudancas-no-dna-melhorar-a-humanidade-ou-destruir-seu-legado-genetico/#respond Thu, 14 Mar 2019 07:00:00 +0000 http://anielleguedes.blogosfera.uol.com.br/?p=18

O nascimento de bebês que passaram por edição genética, em novembro de 2018, voltou a levantar acaloradas discussões a respeito da ética e dos limites da ciência. As gêmeas chinesas, fruto de experiências de cientistas daquele país, tiveram seus genes modificados enquanto ainda eram embriões. Agora, cientistas norte-americanos levantaram a possibilidade das meninas possuírem capacidades cognitivas alteradas como efeito colateral do procedimento, que as deixou livres do HIV.

Afinal, uma vez que essa tecnologia se mostra uma realidade viável, devemos alterar o DNA humano? Se sim, quais são os limites para essa alteração genética? Com qual finalidade poderíamos fazê-la? Quais são os riscos individuais e coletivos da edição genética de humanos? Ao mesmo tempo em que os questionamentos éticos são complexos, os benefícios prometidos por meio da alteração genética são muitos. Com a edição de DNA, seria possível criar bebês imunes ao HIV, como no caso em questão, ao Alzheimer e até mesmo ao câncer, afirma o Dr. He Jiankui, cientista líder do projeto de edição das gêmeas.

A controversa tecnologia que permite a edição genética chamada CRISPR/Cas9 é recente. Foi criada em 2012, mas com casos práticos apresentados a partir de 2015. Com ela, já foram criados mosquitos resistentes à malária, cabras super musculosas, bem como tratar a cegueira em ratos. Além disso, o CRISPR/Cas9 é a tecnologia mais barata e precisa para se realizar edições genéticas.

Ela funciona como uma tesoura genética que consegue cortar o DNA, permitindo que material genético seja adicionado, removido ou alterado em diferentes locais do genoma. O CRISPR/Cas9 foi inventado a partir de um mecanismo natural que ocorre nas bactérias. Esse processo tem duas etapas. Primeiro a bactéria captura pequenos pedaços de DNA de vírus invasores e os usa para criar novos segmentos de DNA, chamados de vetores CRISPR. Estes vetores permitem que a bactéria se lembre dos vírus que a atacaram, e caso eles ataquem novamente, ela consegue usar os vetores CRISPR para identificá-los. Depois, a bactéria pode usar a enzima Cas9 para cortar essa parte do DNA e desativar o vírus.

Se encarada de forma puramente técnica, a tecnologia parece inofensiva e promissora. No entanto, as preocupações éticas mais profundas com relação ao CRISPR/Cas9 só começam quando passamos a tratar de edições do genoma humano. Nos humanos, a maioria das mudanças causadas pela edição genética ficariam limitadas às células somáticas. Essas mudanças afetam apenas alguns tecidos e não são passados de uma geração para outra, pois as células somáticas são todas as que formam o corpo, exceto a linha germinativa – óvulos e espermatozóides.

No entanto, mudanças realizadas nos óvulos ou espermatozóides podem ser passadas para gerações futuras. A linha germinativa e a edição genética de embriões levantam um sem número de questões e desafios éticos, incluindo se poderíamos usar esta tecnologia para melhorar características humanas usuais, como peso ou inteligência, ou ainda criar novas características, como visão noturna ou super força.

Por esses motivos, a edição de linha germinativa e também de células embrionárias é atualmente ilegal em muitos países, como no Canadá e nos países da União Europeia. Na China, o procedimento realizado pelo dr. Jiankui também foi considerado ilegal, apesar do financiamento dado pelo governo chinês a pesquisas similares em 2015. O cientista encontra-se sob investigação e em prisão domiciliar. As autoridades chinesas alegam que ele realizou a edição genética em benefício de sua própria carreira e que a pesquisa não é financiada pelo governo ou configura parte de um projeto de competitividade em biotecnologia. Há também evidências de que seus experimentos tenham sido realizados de maneira antiética e irresponsável, colocando em risco as crianças. Quando questionado se faria isso com seus filhos, o pesquisador declarou: “Se fosse meu bebê, na mesma situação, eu teria tentado”.

Há outros cientistas que defendem firmemente que a edição de linha germinativa deveria ser utilizada para moldar a saúde das próximas gerações, removendo mutações que causam câncer infantil ou fibrose cística. Esses cientistas não são os únicos que acreditam na modificação genética como prevenção de doenças incuráveis. Uma pesquisa de 2019 realizada pela Associated Press e a Universidade de Chicago revela que 71% dos norte-americanos é a favor do uso da modificação genética para prevenção de doenças incuráveis, mas que apenas 10% acharia aceitável o seu uso para modificar atributos físicos, como a cor dos olhos. Além disso, 52% dos entrevistados temem que a tecnologia seja usada para finalidades anti-éticas.

Uma outra questão em debate é o real potencial de prevenção de doenças. É possível que as expectativas estejam infladas. Na revista “Nature Medicine” foi publicado um estudo sobre CRISPR afirmando que o uso proliferado da técnica poderia aumentar os riscos de câncer, ao invés de diminuí-los. De acordo com cientistas, uma das consequências da modificação seria uma certa tendência de selecionar células sem uma proteína que barra mecanismos cancerígenos. Com as bebês Nana e Lulu criadas pelo cientistas chinês, não seria diferente. Não há como prever quais os efeitos futuros das alterações de forma integral, afirma o artigo.

Apesar dos criadores do CRISPR concordarem que devemos tentar impedir um cenário apocalíptico, não há um consenso sobre como fazer isso. Até mesmo algumas revistas científicas de grande renome divulgaram que não iriam publicar artigos sobre experimentos de edição genética em humanos. O que todos concordam, no entanto, é que é necessário evitar o cenário catastrófico da edição de genes desenfreada que afeta a hereditariedade e que pode impactar o pool gênico compartilhado de toda a humanidade.

O futuro profundamente marcado pela edição dos genes apresentado nas ficções científicas como “Admirável Mundo Novo” ou “Gattaca” não parece ser aquele em que queremos viver. Em face desse cenário possível, muitas dúvidas ainda pairam, a mais persistente delas: quais as consequências e os limites dessa edição? O neurobiologista Silva, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, responde: “Não temos como saber as consequências de ficar mexendo [com o DNA humano]. Ainda não estamos prontos para saber.” Se observarmos os efeitos que a modificação genética teve em alimentos e plantações – os transgênicos – em especial afetando sua biodiversidade e tornando as espécies mais frágeis, podemos ter um vislumbre do que poderia acontecer conosco, humanos.

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