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Anielle Guedes

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Mudanças no DNA: melhorar a humanidade ou destruir seu legado genético?

Anielle Guedes

14/03/2019 04h00

O nascimento de bebês que passaram por edição genética, em novembro de 2018, voltou a levantar acaloradas discussões a respeito da ética e dos limites da ciência. As gêmeas chinesas, fruto de experiências de cientistas daquele país, tiveram seus genes modificados enquanto ainda eram embriões. Agora, cientistas norte-americanos levantaram a possibilidade das meninas possuírem capacidades cognitivas alteradas como efeito colateral do procedimento, que as deixou livres do HIV.

Afinal, uma vez que essa tecnologia se mostra uma realidade viável, devemos alterar o DNA humano? Se sim, quais são os limites para essa alteração genética? Com qual finalidade poderíamos fazê-la? Quais são os riscos individuais e coletivos da edição genética de humanos? Ao mesmo tempo em que os questionamentos éticos são complexos, os benefícios prometidos por meio da alteração genética são muitos. Com a edição de DNA, seria possível criar bebês imunes ao HIV, como no caso em questão, ao Alzheimer e até mesmo ao câncer, afirma o Dr. He Jiankui, cientista líder do projeto de edição das gêmeas.

A controversa tecnologia que permite a edição genética chamada CRISPR/Cas9 é recente. Foi criada em 2012, mas com casos práticos apresentados a partir de 2015. Com ela, já foram criados mosquitos resistentes à malária, cabras super musculosas, bem como tratar a cegueira em ratos. Além disso, o CRISPR/Cas9 é a tecnologia mais barata e precisa para se realizar edições genéticas.

Ela funciona como uma tesoura genética que consegue cortar o DNA, permitindo que material genético seja adicionado, removido ou alterado em diferentes locais do genoma. O CRISPR/Cas9 foi inventado a partir de um mecanismo natural que ocorre nas bactérias. Esse processo tem duas etapas. Primeiro a bactéria captura pequenos pedaços de DNA de vírus invasores e os usa para criar novos segmentos de DNA, chamados de vetores CRISPR. Estes vetores permitem que a bactéria se lembre dos vírus que a atacaram, e caso eles ataquem novamente, ela consegue usar os vetores CRISPR para identificá-los. Depois, a bactéria pode usar a enzima Cas9 para cortar essa parte do DNA e desativar o vírus.

Se encarada de forma puramente técnica, a tecnologia parece inofensiva e promissora. No entanto, as preocupações éticas mais profundas com relação ao CRISPR/Cas9 só começam quando passamos a tratar de edições do genoma humano. Nos humanos, a maioria das mudanças causadas pela edição genética ficariam limitadas às células somáticas. Essas mudanças afetam apenas alguns tecidos e não são passados de uma geração para outra, pois as células somáticas são todas as que formam o corpo, exceto a linha germinativa – óvulos e espermatozóides.

No entanto, mudanças realizadas nos óvulos ou espermatozóides podem ser passadas para gerações futuras. A linha germinativa e a edição genética de embriões levantam um sem número de questões e desafios éticos, incluindo se poderíamos usar esta tecnologia para melhorar características humanas usuais, como peso ou inteligência, ou ainda criar novas características, como visão noturna ou super força.

Por esses motivos, a edição de linha germinativa e também de células embrionárias é atualmente ilegal em muitos países, como no Canadá e nos países da União Europeia. Na China, o procedimento realizado pelo dr. Jiankui também foi considerado ilegal, apesar do financiamento dado pelo governo chinês a pesquisas similares em 2015. O cientista encontra-se sob investigação e em prisão domiciliar. As autoridades chinesas alegam que ele realizou a edição genética em benefício de sua própria carreira e que a pesquisa não é financiada pelo governo ou configura parte de um projeto de competitividade em biotecnologia. Há também evidências de que seus experimentos tenham sido realizados de maneira antiética e irresponsável, colocando em risco as crianças. Quando questionado se faria isso com seus filhos, o pesquisador declarou: "Se fosse meu bebê, na mesma situação, eu teria tentado".

Há outros cientistas que defendem firmemente que a edição de linha germinativa deveria ser utilizada para moldar a saúde das próximas gerações, removendo mutações que causam câncer infantil ou fibrose cística. Esses cientistas não são os únicos que acreditam na modificação genética como prevenção de doenças incuráveis. Uma pesquisa de 2019 realizada pela Associated Press e a Universidade de Chicago revela que 71% dos norte-americanos é a favor do uso da modificação genética para prevenção de doenças incuráveis, mas que apenas 10% acharia aceitável o seu uso para modificar atributos físicos, como a cor dos olhos. Além disso, 52% dos entrevistados temem que a tecnologia seja usada para finalidades anti-éticas.

Uma outra questão em debate é o real potencial de prevenção de doenças. É possível que as expectativas estejam infladas. Na revista "Nature Medicine" foi publicado um estudo sobre CRISPR afirmando que o uso proliferado da técnica poderia aumentar os riscos de câncer, ao invés de diminuí-los. De acordo com cientistas, uma das consequências da modificação seria uma certa tendência de selecionar células sem uma proteína que barra mecanismos cancerígenos. Com as bebês Nana e Lulu criadas pelo cientistas chinês, não seria diferente. Não há como prever quais os efeitos futuros das alterações de forma integral, afirma o artigo.

Apesar dos criadores do CRISPR concordarem que devemos tentar impedir um cenário apocalíptico, não há um consenso sobre como fazer isso. Até mesmo algumas revistas científicas de grande renome divulgaram que não iriam publicar artigos sobre experimentos de edição genética em humanos. O que todos concordam, no entanto, é que é necessário evitar o cenário catastrófico da edição de genes desenfreada que afeta a hereditariedade e que pode impactar o pool gênico compartilhado de toda a humanidade.

O futuro profundamente marcado pela edição dos genes apresentado nas ficções científicas como "Admirável Mundo Novo" ou "Gattaca" não parece ser aquele em que queremos viver. Em face desse cenário possível, muitas dúvidas ainda pairam, a mais persistente delas: quais as consequências e os limites dessa edição? O neurobiologista Silva, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, responde: "Não temos como saber as consequências de ficar mexendo [com o DNA humano]. Ainda não estamos prontos para saber." Se observarmos os efeitos que a modificação genética teve em alimentos e plantações – os transgênicos – em especial afetando sua biodiversidade e tornando as espécies mais frágeis, podemos ter um vislumbre do que poderia acontecer conosco, humanos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Anielle Guedes estudou Física e Economia na Universidade de São Paulo e sem concluir os cursos de graduação embarcou em uma pós graduação nos Estados Unidos sobre inovação disruptiva na Singularity University (localizada em uma base da NASA). Assim virou especialista em tecnologias emergentes, foresight e desafios globais. Fundou uma startup de impressão 3D e manufatura avançada para construção, a qual liderou por 4 anos e atuou no Brasil, Estados Unidos e Europa. Foi eleita pela Forbes, MIT e Bloomberg como uma das jovens mais inovadoras do mundo. Tornou-se consultora em inovação e desenvolvimento econômico, participando de projetos de advisory e advocacy em governos federais e organismos multilaterais, além de ser conselheira de organizações como o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Palestrou em mais de 30 países. Atualmente cursa Economia e Ciência Política pela Universty of London, London School of Economics.

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