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Anielle Guedes

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Enxames de motoboys-drone: o céu é o limite

Anielle Guedes

09/05/2019 04h00

A Google conseguiu permissão para realizar entregas comerciais com drones em duas cidades americanas, sendo a primeira empresa a conquistar essa autorização nos Estados Unidos. Enquanto isso, a Amazon, que prometia esse serviço até o fim do ano passado, segue sem autorização para colocar seu Amazon Prime Air no ar. A conquista da Google pode representar o avanço da indústria de entregas com drones?  

Ainda assim, o que isso representa para nossas cidades? Pode ser que em poucos anos tenhamos um enxame de motoboys-drone passando por cima de nossas cabeças a qualquer hora, dia e noite. Questões como segurança, privacidade e, até mesmo, poluição sonora têm de ser consideradas antes que nosso céu esteja povoado por milhares de robôs de entrega.

Em breve: um enxame de drones bem perto da sua casa

É um pássaro? É um avião? Não! É o produto que você pediu sendo entregue por um drone na porta da sua casa. A Wing, subsidiária da Google, recebeu permissão da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) para realizar a entrega de pacotes aos clientes utilizando drones. A autorização do serviço nos EUA chegou logo depois da autorização concedida na Austrália e classifica a companhia como uma transportadora aérea de pequeno porte. As entregas utilizando drones devem ter início em alguns meses nas cidades rurais Blacksburg e Christiansburg, na Virgínia, por meio de parcerias com comércios locais.

A concessão da FAA é fundamental, pois não só permite que a Wing realize o serviço comercial de entregas, mas também que cobre por ele. O processo foi rigoroso e extensivo, com a criação de manuais, rotinas de treinamento e segurança que tiveram de ser adaptados das transportadoras aéreas tradicionais, já que drones não precisam de procedimentos envolvendo passageiros e comissários de bordo. A empresa acredita que com o desenvolvimento desse primeiro manual, muitas outras empresas de drones poderão candidatar suas aprovações à FAA. É um precedente regulatório que abre espaço para essa nascente indústria.

Quem não deve estar muito animada com a notícia é a Amazon, que tinha como meta iniciar suas entregas com drones até o final de 2018 e que, até o momento, ainda não oferece o serviço aos clientes. O Amazon Prime Air, um projeto ousado e inovador, foi anunciado pela empresa ainda em 2013 em um vídeo que mostrava a distribuição de pacotes utilizando os pequenos veículos aéreos.

No entanto, a Amazon ainda não possui permissão para entregas comerciais com drones, apenas em demonstrações privadas, e foi ultrapassada pela Wing, que em 2014 já completou suas primeiras entregas na região rural da Austrália. Mas tudo indica que a gigante do varejo on-line não ficará para trás por muito tempo: no mês passado a empresa estava contratando novos operadores de teste de drone em Cambridge para integrar o projeto Air.

A Amazon segue uma trajetória de aprimoramento de seus serviços de entrega ao longo dos anos. Se para os clientes comuns o serviço da empresa já garante as entregas mais rápidas, por meio do Amazon Prime os pacotes chegam às casas dos consumidores em apenas dois dias. Agora, a empresa promete que esse tempo de entrega vai cair ainda mais, garantindo entregas em um dia. O Prime Air seria o próximo passo nessa jornada, com entregas em 30 minutos.

Pequenos veículos aéreos, grandes distâncias –  em locais remotos, a diferença entre a vida e a morte

As entregas em tempo recorde vão, porém, muito além apenas da conveniência de comprar e receber produtos cada vez mais rápido. A empresa de logística americana UPS fechou parceria com a Matternet para fornecer amostras médicas para pacientes por meio de drones, acabando com as chances de atrasos nas estradas, aumentando a eficiência da entrega sob demanda e reduzindo os custos das entregas.  A parceria está em andamento para alavancar o uso de drones, expandindo o acesso à saúde para os moradores da Carolina do Norte. Um dos primeiros projetos pilotos para entregas de itens de saúde foi realizado no país africano do Malawi, em parceria com Unicef, no primeiro do mundo para entrega de kits de rápido diagnóstico de HIV. 

A Zipline, empresa de San Francisco, lançou há duas semanas um programa de fornecimento de suprimentos médicos por meio de drones em Gana. Trabalhando em parceria com o governo, a Zipline operará 30 drones de quatro centros de distribuição para entregar vacinas, sangue e medicamentos a duas mil instalações de saúde do país africano diariamente. Segundo o CEO da empresa, serão 600 voos por dia que atenderão 12 milhões de pessoas – tornando-se a maior rede de distribuição de drones do planeta, segundo o presidente do Gana, Nana Akufo-Addo.

A logística de entrega de órgãos para transplantes também é bastante complicada e a vida dos pacientes depende da agilidade no processo de transporte. Já existem projetos que utilizam drones como uma maneira de reduzir essas distâncias. Um time interdisciplinar da Universidade de Maryland criou, recentemente, um drone que obteve sucesso ao entregar um rim para transplante em um paciente com um longo histórico de problema renal. Pesquisadores, cirurgiões, especialistas em aviação e outros experts desenvolveram um sistema de monitoramento do órgão e um transportador que mantém o órgão em segurança ao longo da viagem.

Trânsito de drones 

Se há poucos anos os drones custavam caro e não eram de acesso ao grande público, hoje eles já são vistos voando por aí nas mãos de cinegrafistas amadores. Mas nenhum lugar do mundo é tão promissor para a pesquisa e o desenvolvimento da tecnologia de drones quanto a Suíça, que entre os institutos federais de tecnologia de Lausanne e Zurique possui o "Vale dos Drones", com mais de 80 startups da área que geram cerca de 2.500 empregos na região. O sucesso no desenvolvimento de drones na Suíça se deve a diversos fatores, incluindo a as excelentes escolas de robótica do país, infraestrutura e programas de incentivo a projetos inovadores. O ambiente legislativo da Suíça também dá liberdade aos pesquisadores e o posto de pioneiro em drones deve ser mantido, se depender das iniciativas do governo federal.

O Escritório Federal de Aviação Civil suíço está trabalhando em uma revisão dos regulamentos existentes, enquanto isso a autoridade desenvolveu um método para avaliar os riscos ligados ao uso de drones, chamado de "avaliação de risco de operações específicas" (SORA), que também se destina a criar um registro dos equipamentos, permitindo que seus proprietários sejam localizados em caso de necessidade. Essas medidas não existem à toa, já que os pequenos veículos aéreos estão ocupando mais e mais espaço no céu suíço. Hoje, cerca de 22 mil máquinas são vendidas anualmente e cerca de cem mil já estão em operação no país europeu.

Aqui no Brasil, a quantidade não chega nem perto disso, mas está crescendo: segundo dados do sistema SARPAS (Solicitação de Acesso de Aeronaves Remotamente Pilotadas), o Brasil conta com um total de 18.951 pilotos e 14.161 aeronaves. Mesmo com essa quantidade bem menor, já tivemos iniciativas inovadoras bem perto de nós. Em 2014, uma pizzaria de Santo André, na região metropolitana de São Paulo, testou entregar pizzas utilizando um drone. A ideia foi inspirada pelo anúncio do serviço Amazon Prime Air e na busca por entregas mais rápidas que batessem o tempo de 30 minutos ou menos da Domino's.

A entrega da pizza foi realizada para uma cobertura nas imediações da pizzaria, com um tempo de apenas cinco minutos de voo, quase metade do tempo que uma moto levaria, de acordo com o estabelecimento. Na época, o pequeno teste da pizzaria não foi bem visto pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e pela Força Aérea Brasileira (FAB), que não haviam sequer sido procuradas pelo estabelecimento. A legislação específica para voos com drones só foi criada no Brasil alguns anos depois, em 2017.

Os aplicativos de entrega já atingem patamares altíssimos nas grandes cidades, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) o mercado de apps de entrega faturou mais de R$ 10 bilhões no País em 2017. Se em 2014 esse teste já era uma experiência interessante, atualmente as entregas com drones poderiam tomar proporções gigantescas ao redor do mundo inteiro, povoando nosso céu com enxames de motoboys-drone. Mas quem ganha com isso? Será que queremos mesmo viver em um mundo em que os pequenos veículos estão zunindo constantemente sobre nossas cabeças?

Não há dúvidas de que os drones têm a capacidade de ajudar muitas pessoas e até facilitar as nossas vidas, mas é preciso pensar a respeito das implicações desse novo mercado. Segurança, privacidade, bem-estar: tudo isso está em jogo quando falamos de veículos que podem chegar a praticamente qualquer lugar, a qualquer horário. Talvez acabemos escolhendo a conveniência dos drones, mas qual é o custo para todos da entrega mais rápida das nossas compras on-line?

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Anielle Guedes estudou Física e Economia na Universidade de São Paulo e sem concluir os cursos de graduação embarcou em uma pós graduação nos Estados Unidos sobre inovação disruptiva na Singularity University (localizada em uma base da NASA). Assim virou especialista em tecnologias emergentes, foresight e desafios globais. Fundou uma startup de impressão 3D e manufatura avançada para construção, a qual liderou por 4 anos e atuou no Brasil, Estados Unidos e Europa. Foi eleita pela Forbes, MIT e Bloomberg como uma das jovens mais inovadoras do mundo. Tornou-se consultora em inovação e desenvolvimento econômico, participando de projetos de advisory e advocacy em governos federais e organismos multilaterais, além de ser conselheira de organizações como o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Palestrou em mais de 30 países. Atualmente cursa Economia e Ciência Política pela Universty of London, London School of Economics.

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