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Anielle Guedes

Combater covid-19 e salvar vidas é possível sem Estado de vigilância

Anielle Guedes

26/03/2020 04h00

A abordagem de países asiáticos, como Singapura, Hong Kong e especialmente da China no combate a COVID-19 pode apontar para uma nova maneira de viver: trocar liberdades plenas por segurança e saúde. O "jeito chinês" de monitorar seus cidadãos, apesar das diversas críticas e violações a liberdades essenciais, é interpretado por alguns como fator crucial no combate rápido ao vírus. Irão as sociedades ocidentais se render ao Estado de vigilância para garantir a saúde de seus cidadãos? Quais outras alternativas permitem salvar vidas e preservar a liberdade e privacidade dos indivíduos simultaneamente? Crowdsourcing cidadão, testes amplos rápidos e plataformas de acesso médico aberto são outras propostas possíveis que podem obter resultados igualmente bem sucedidos.  

Como tudo começa: acompanhar os primeiros casos 

Para que o vírus pare de se espalhar, é essencial que oficiais de saúde encontrem e isolem os contatos das pessoas que foram infectadas com agilidade. E isso não é tarefa fácil, principalmente por esse número de contatos crescer rapidamente. Todos que estiveram  em locais em que havia contágio, e por isso poderiam estar infectados, deveriam ser acompanhados durante um período, que corresponderia à incubação e manifestação dos sintomas. No caso da pandemia do coronavírus, deveria-se ter monitorado todos os viajantes que vieram da província de Hubei, na China, e depois de outros focos de contágio, como a Itália, Irã e outros países onde já existiam casos.

Um dos problemas dessa abordagem é que as pessoas podem transmitir o vírus a outras mesmo antes de manifestar os sintomas, então, o monitoramento sempre estaria "atrás" do trajeto do vírus. Outra questão é que são necessários testes massivos para que as pessoas que estejam sendo acompanhadas sejam também corretamente associadas como infectadas ou não. 

Monitoramento em massa e críticas ainda maiores

Alguns países optaram por monitorar os celulares daqueles que fizeram viagens recentes e até restringir suas movimentações. Vários sistemas como estes já estão em funcionamento em diversos países, mas ainda não se sabe ao certo como os dados são armazenados nem sobre a manutenção da privacidade dos usuários.

Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu transformou um programa de vigilância de terrorismo da agência de segurança nacional, Shin Bet, em um software para localizar pessoas potencialmente infectadas com o vírus. Na Espanha, foram utilizados drones para monitorar as ruas e "ordenar" com alto falantes que as pessoas retornassem às suas casas, após ser promulgado o decreto que restringe encontros e demanda que os cidadãos fiquem em quarentena em suas residências.

Já na Coreia do Sul, informações detalhadas sobre indivíduos infectados, incluindo seus movimentos mais recentes, foram liberadas em aplicativos que enviam mensagens a usuários nas redondezas daquele que estiver infectado. Alguns aplicativos enviam inclusive mensagens que indicam a idade, sexo e trajeto da pessoa infectada. Especialistas apontam que esse tipo de tecnologia, se mal aplicada, pode estigmatizar pessoas infectadas e os lugares que elas frequentam. 

Vigilância participativa como alternativa ao monitoramento do Estado

Uma plataforma de mapeamento colaborativo de casos de Coronavírus através da participação cidadã já está disponível para auxiliar gestores públicos. Foi lançada esta semana a plataforma Brasil sem Corona, que permite a identificação antecipada de riscos de casos de Coronavírus no Brasil com o auxílio voluntário de cidadãos e do engajamento do poder público em formar parcerias e usar estes dados para ações direcionadas ao combate da covid-19.

O aplicativo pode ser baixado de forma gratuita e se pode fornecer informações sobre seu estado de saúde, como por exemplo se está se sentindo bem, se entrou em contato com alguém que apresenta sintomas de covid-19, se reside com alguém que está em algum dos grupos de risco. Estas informações são anonimizadas e constroem um mapa de risco, que informa a localização geográfica dos usuários e o nível de risco de estarem infectados com covid-19.

A tecnologia por trás da plataforma não é nova. O algoritmo de inteligência epidemiológica para enfrentar epidemias foi criado pela startup Epitrack, que já havia trabalhado em projetos de prevenção e predição de epidemias anteriormente. Durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, o Ministério da Saúde instalou um gabinete de acompanhamento com uma equipe que monitorava as tendências de risco de epidemias e enviava equipes de investigação em campo para averiguar se haviam ocorrências ou não.

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Mais rápidos e massivos

Além das medidas de confinamento e quarentena para populações inteiras, para regiões e até países em fechamento completo, o sucesso em deter o vírus está baseado em testar  a todos. Para que se consiga rastrear o contágio, é necessário que milhões de testes sejam feitos nas próximas semanas. Testes confiáveis, porém mais rápidos e em grande escala são uma das peças mais importantes no combate ao espalhamento do vírus. 

Até o momento, os testes no Brasil tem demorado até 15 dias para apresentar resultados. O protocolo tem sido testar apenas aqueles que apresentam sintomas. Mesmo na rede privada, não há muitos testes disponíveis. Pensando na imensa demanda por estes testes, a startup paranaense Hi Technologies criou um teste que pode ser realizado de forma remota, através da coleta de uma amostra de sangue introduzida em um dispositivo portátil.

A solução é promissora: o resultado do teste sai em até 15 minutos, a um custo de 130 reais, de acordo com a empresa. Porém, há uma diferença entre o teste da Hi Technologies e os testes laboratoriais convencionais. Os tradicionais permitem detectar a infecção por COVID-19 por aqueles que são ainda suspeitos de contágio, pois identificam um pedaço do DNA do vírus. Já o teste rápido se destina aqueles que já apresentam sintomas, pois identifica o anticorpo produzido pelo próprio indivíduo e não pelo vírus. 

Testar, testar e restringir interações 

A pequena cidade de Vó, na região do Vêneto, optou por uma abordagem direta e que tem se mostrado eficiente. A cidade foi uma das primeiras a ser colocadas em quarentena, e  desde dia 13 de março não há novos casos de COVID-19.

Pesquisadores da Universidade de Pádua, atuaram em conjunto com a Cruz Vermelha e oficiais do governo da Província do Vêneto para testar todos os 3300 habitantes da cidade. Mesmo que estes não apresentassem quaisquer sintomas. Dos testes, foi possível concluir que 3% dos residentes estavam contaminados com o vírus, e que uma grande maioria deles não apresentava nenhum dos sintomas relacionados a covid-19.

Apesar do governo regional do Vêneto não se alarmar com o número de infectados, a cidade de Vo decidiu por monitorar todos os habitantes e colocar em quarentena aqueles que testaram positivo. Após duas semanas de quarentena, todos os habitantes foram novamente testados. Dessa vez a taxa de contaminação foi menor do que 0,41%. 

A recomendação oficial da OMS (Organização Mundial da Saúde) para os países é que seja feito o maior número de testes possível, e que todos os casos suspeitos sejam testados. De acordo com o Diretor Geral da OMS, não é possível lutar contra um inimigo se estivermos vendados, e os testes fazem com que possamos ver contra quem estamos batalhando.

A combinação efetiva de testes massivos, acompanhamento da população e medidas restritivas de movimentação tem se mostrado a maneira mais efetiva de combater a expansão da contaminação por covid-19. Nem o autoritarismo e repressão para tentar garantir a coesão social, nem a vigilância ostensiva, sozinhos, podem ganhar a guerra contra o vírus. É preciso muita ciência, tecnologia, dados confiáveis e uma população engajada e conscientizada do seu papel no combate ao vírus para que se consiga vencer. Uma dose de monitoramento será sim, imprescindível. Que seja acompanhada também da dose primordial de privacidade que todos precisaremos depois que esta crise passar. 

 

Sobre a autora

Anielle Guedes estudou Física e Economia na Universidade de São Paulo e sem concluir os cursos de graduação embarcou em uma pós graduação nos Estados Unidos sobre inovação disruptiva na Singularity University (localizada em uma base da NASA). Assim virou especialista em tecnologias emergentes, foresight e desafios globais. Fundou uma startup de impressão 3D e manufatura avançada para construção, a qual liderou por 4 anos e atuou no Brasil, Estados Unidos e Europa. Foi eleita pela Forbes, MIT e Bloomberg como uma das jovens mais inovadoras do mundo. Tornou-se consultora em inovação e desenvolvimento econômico, participando de projetos de advisory e advocacy em governos federais e organismos multilaterais, além de ser conselheira de organizações como o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Palestrou em mais de 30 países. Atualmente cursa Economia e Ciência Política pela Universty of London, London School of Economics.