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Anielle Guedes

Campeões do Carnaval 2020: mascarados contra o reconhecimento facial

Anielle Guedes

26/02/2020 04h00

Para o Carnaval de 2020, os foliões puderam aderir a uma nova tendência estética: maquiagem, máscaras e até roupas anti-reconhecimento facial. Pinturas de linhas que confundem os algoritmos, ou técnicas de maquiagem para envelhecer o rosto, cabelos que escondem seus olhos, máscaras que impedem completamente o reconhecimento e até acessórios um pouco mais inusitados podem fazer parte do seu look de carnaval – ou fora dele – para escapar do monitoramento constante do Estado de vigilância.

Sorria, você está sendo filmado (o tempo todo)

As câmeras são cada dia mais presentes em nossas vidas, de nossos celulares às câmeras de segurança de estabelecimentos comerciais e das ruas – já não é possível se esconder ou ter privacidade, quer seja no espaço público ou privado. No carnaval, com milhões de pessoas nas ruas, nos blocos, nas festas e nas quadras, câmeras também podem fazer uma verdadeira folia do reconhecimento facial.

O governador de São Paulo, João Dória, anunciou que em 2020 o carnaval contaria com sistema de reconhecimento facial para identificar criminosos e desaparecidos. O sistema conta com um banco de 30 milhões de fotografias. No entanto, a tecnologia de São Paulo não funciona em tempo real. No caso de Salvador, cidade que também conta com sistema de reconhecimento facial com fins policiais, em 2019 um suspeito de homicídio que curtia a festa vestido de mulher chegou a ser preso após ser identificado pelo sistema.

É bastante óbvio que esses são usos positivos da tecnologia de reconhecimento facial, que funcionaria aqui como uma aliada do sistema de segurança. Porém, também existe uma série de problemas, como erros intrínsecos do sistema, por exemplo. No Rio de Janeiro, no segundo dia de uso da tecnologia, uma mulher foi detida por engano, confundida com uma mulher que, inclusive, já estava detida. 

Mas além dos possíveis enganos que podem acontecer por conta da tecnologia, há outras questões ainda maiores: perseguição política, viés e a criação de um estado de vigilância. Nós sabemos que os softwares de inteligência artificial ainda são fortemente guiados por opiniões tendenciosas de seus programadores, o que pode causar perseguição a grupos específicos de pessoas, inclusive de minorias e opositores políticos.

O Estado está atrás de você

No documentário "Citizenfour", de Laura Poitras, é revelado que a namorada de longa data de Edward Snowden, Lindsay Mills, também deixou os Estados Unidos e se juntou a Snowden na Rússia. A revista Vogue fez, então, uma série de recomendações sarcásticas de roupas para Mills se esconder da inteligência e se proteger do frio: "Para um passeio discreto por Moscou, achamos que Mills faria melhor em abraçar o gosto de seus compatriotas por peles – e um toque de desapontamento de Bonnie Parker – em um look de camuflagem de Valentino". 

Deixando de lado o deboche da revista, é realmente importante refletir sobre as tensões políticas envolvidas com o reconhecimento facial. Ele poderia ser utilizado contra militantes ou pessoas que, de alguma forma, questionam ou enfrentam as autoridades políticas? De que forma podemos saber que a tecnologia será utilizada de maneira ética, sem colocar em risco a democracia e o bem-estar das pessoas?

O artista Adam Harvey tem uma linha de roupas projetada como um comentário político e uma possível proteção contra a vigilância moderna. Os projetos mascaram a assinatura térmica de uma pessoa, de modo que se misturam ao fundo quando vistos através de câmeras infravermelhas. Já o Computer Vision (CV) Dazzle é uma categoria inteira de aplicativos de maquiagem que confunde o software de reconhecimento facial usando formas nítidas e contrastantes. O CV Dazzle se inspira na camuflagem dos navios de guerra da Primeira Guerra Mundial, projetada para confundir os inimigos e, especialmente, os submarinos sobre exatamente a que distância seu alvo estava. A tinta Dazzle não se parece em nada com o ambiente de fundo, mas ainda obscurece a aparência do usuário.

 

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Maquiagem como resistência e proteção

As roupas e maquiagens desenvolvidas por Harvey são tudo, menos discretas. Mas elas exploram como a moda pode ser usada como camuflagem contra o reconhecimento facial. O CV Dazzle usa designs de penteado e maquiagem de vanguarda para separar a continuidade de um rosto. Como os algoritmos de reconhecimento facial baseiam-se na identificação e na relação espacial dos principais recursos faciais, como simetria e contornos tonais, é possível bloquear a detecção criando um "anti-rosto".

Essa pode ser uma nova tendência: utilizar a estética como uma ferramenta de combate ao reconhecimento facial. E qual época melhor do que o carnaval para abraçar a ideia de ter uma pintura de Picasso no seu rosto? Redemoinhos, formas estranhas, cores primárias podem frustrar os algoritmos de reconhecimento facial. Assim como perucas com espinhos ou uma franja que obscurece a metade superior do seu rosto.

Outra saída, talvez mais simples, seria simplesmente envelhecer o rosto utilizando maquiagem. Os sistemas normalmente funcionam mapeando as características faciais de um indivíduo, como órbitas oculares, nariz, queixo e mandíbula, além de textura, linhas e manchas na pele. A maquiagem envelhecida funciona alterando a forma do rosto, especialmente ao redor dos olhos e do queixo, para replicar o efeito flacidez do envelhecimento na pele. Também pode adicionar realces, sombras e rugas ou enfatizar as rugas existentes de uma maneira que não chamaria a atenção de uma pessoa, mas engana facilmente os algoritmos.

Em Hong Kong, onde o uso de reconhecimento facial tem avançado rapidamente como ferramenta de opressão, manifestantes antigoverno que usavam máscaras proibidas pelas leis de emergência, também passaram a se vestir de preto para escapar dos "olhos" das autoridades. Respostas estéticas a essa vigilância constante têm surgido ao redor do globo. 

Criatividade e design inusitado

Além das maquiagens e cabelos assimétricos na frente do rosto, outras alternativas podem ser uma máscara em forma de lente, por exemplo, que torna o usuário indetectável aos algoritmos de reconhecimento facial, enquanto ainda permite que os humanos leiam expressões faciais e sua identidade. A máscara de "exclusão de vigilância" foi projetada por Jip van Leeuwenstein, aluno da Escola de Artes de Utrecht, na Holanda.

Outro estudante da Holanda inventou um projetor que sobrepõe uma imagem de uma face diferente à do usuário. Jing-cai Liu criou o projetor de rosto vestível, um "pequeno projetor projeta uma aparência diferente em seu rosto, proporcionando uma aparência completamente nova". O dispositivo ainda muda rapidamente entre as faces projetadas, tornando a detecção mais difícil.

Um professor universitário japonês projetou óculos equipados com LEDs que impedem o reconhecimento facial. A máscara facial Pixelhead atua como camuflagem de mídia, protegendo completamente a cabeça para garantir que seu rosto não seja reconhecível em fotografias tiradas em locais públicos sem garantia de permissão, afirma o criador Martin Backes. 

Numa abordagem mais simples, os cientistas de computação belgas Simen Thys, Wiebe Van Ranst e Toon Goedemé projetaram "patches contraditórios" como parte de um estudo financiado pela Universidade KU Leuven. Basicamente, uma impressão gráfica poderia ser adicionada às roupas para "atacar" e desconcertar a tecnologia de vigilância.

O uso que a tecnologia reconhecimento facial terá em nossas sociedades ainda é incerto. Apesar de promissora, apresenta mais riscos do que benefícios, se aplicada em escala por instituições com monopólio de uso destes dados de forma irrestrita. A resposta para todos os questionamentos levantados certamente terá que incluir alguma forma de regulamentação para controlar como uma tecnologia tão poderosa é usada. Mas e até lá, como faremos? Talvez o carnaval deste ano não acabe tão cedo e continuemos mascarados.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Anielle Guedes estudou Física e Economia na Universidade de São Paulo e sem concluir os cursos de graduação embarcou em uma pós graduação nos Estados Unidos sobre inovação disruptiva na Singularity University (localizada em uma base da NASA). Assim virou especialista em tecnologias emergentes, foresight e desafios globais. Fundou uma startup de impressão 3D e manufatura avançada para construção, a qual liderou por 4 anos e atuou no Brasil, Estados Unidos e Europa. Foi eleita pela Forbes, MIT e Bloomberg como uma das jovens mais inovadoras do mundo. Tornou-se consultora em inovação e desenvolvimento econômico, participando de projetos de advisory e advocacy em governos federais e organismos multilaterais, além de ser conselheira de organizações como o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Palestrou em mais de 30 países. Atualmente cursa Economia e Ciência Política pela Universty of London, London School of Economics.