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Big Brother automotivo: seu carro está te vigiando

Anielle Guedes

05/12/2019 04h00

Desde seu início, por volta dos anos 1860, a indústria automobilística vem revolucionando a forma como nos movemos e transformado a maneira como vivemos. Porém, o avanço da tecnologia da informação causou (e causará) mais mudanças na área do que todas as suas evoluções nos últimos 50 anos.

Ao contrário do que se esperava no passado, com carros voadores e de design arrojado, como o Cybertruck, último lançamento da Tesla, os veículos têm em seu futuro uma reinvenção por meio de tecnologias digitais e da conectividade. É muito mais sobre carros conversarem entre si e oferecerem serviços personalizados do que resistência à prova de balas.

Apesar das grandes expectativas, carros autônomos ainda estão um pouco distantes da nossa realidade. Outras tecnologias de monitoramento e serviços personalizados, por exemplo, estão mais próximas do consumidor. Sim, será muito mais fácil encontrar o caminho, tocar suas músicas favoritas e se manter seguro dentro de seu veículo. Mas nos vemos diante de um dilema: a perda da nossa privacidade por conta da venda de dados.

A tecnologia: superconectividade
Acelerada pelo desenvolvimento da inteligência artificial, a indústria automobilística será, muito em breve, superconectada. Os carros tradicionais, que antes ofereciam apenas liberdade de movimentos, agora oferecerão também experiências novas e interfaces completas que mudarão a forma como dirigimos. Acha que é exagero? Restaurantes poderão, por exemplo, oferecer publicidade para viajantes no horário de almoço. O motorista, por sua vez, poderá fazer o pedido ainda durante o trajeto por meio da conectividade do carro.

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Pesquisadores da consultoria Mckinsey dividem a interatividade de veículos em cinco níveis: no nível 1, à medida que as seguradoras aprendem mais sobre riscos, os motoristas podem receber um desconto pessoal com base em como e onde os veículos são dirigidos. O Nível 2 agregaria dados adicionais baseados em perfis sobre os motoristas e o ambiente de condução, proporcionando às seguradoras um perfil de risco ainda melhor.

Em níveis mais altos de conectividade, níveis 3 e 4, os sistemas podem analisar práticas de direção arriscadas e sinalizá-las aos operadores de veículos por meio de mensagens de voz. Uma pesquisa da empresa ainda sugere que até 2030, 45% dos veículos novos atingirão o terceiro nível de conectividade, representando valores entre 450 bilhões a 750 bilhões de dólares.

Monitoramento: sensores por toda a parte
O nível 5 de conectividade, o mais alto, incorporaria sensores que poderiam detectar a fadiga do motorista e sugerir tempos de descanso ou permitir que o carro assumisse algumas funções importantes do motorista, como freios ou direção, para evitar colisões. Isso poderia repercutir em benefícios sociais, reduzindo os custos associados a acidentes de automóvel, como hospitalização.

Atualmente, os carros podem ver a estrada ao redor para realizar várias tarefas, com câmeras de ré, sensores de estacionamento paralelos e frenagem de emergência automática. A tecnologia de câmeras continua sendo aprimorada, com cada vez maior desempenho e menores preços. Recentemente, unidades de processamento de câmera conseguiram decifrar imagens 3D e essa tecnologia pode ser muito útil em veículos, como detectar freios e buracos.

Outra tecnologia interessante é a DeepRay que permite aos veículos enxergar na chuva e na neve. Por meio da inteligência artificial, ela consegue reconstruir imagens de quadros danificados ou obscurecidos em tempo real. O Radar automotivo já existe há algum tempo e é frequentemente usado para sistemas avançados de assistência ao motorista (ADAS). A grande tendência dos próximos anos é a ampla adoção do radar automotivo, graças à funcionalidade automatizada de frenagem e segurança de pedestres.

As empresas continuarão a desenvolver um software que consiga interpretar e "fundir" essas diferentes fontes de dados visuais além de "categorizar" os objetos que detectar. Essa categorização poderá localizar esses objetos e prever para onde eles serão a seguir. Isso é essencial para a segurança autônoma do veículo.

A indústria está em um ponto de amadurecimento que já existem até mesmo associações para definir os parâmetros de implementação dessas tecnologias. A Car Connectivity Consortium (CCC) é uma organização intersetorial que promove tecnologias globais para soluções de conectividade de smartphone para carro. A CCC está desenvolvendo a Digital Key, um novo e empolgante padrão aberto para permitir que dispositivos inteligentes, como smartphones, atuem como chave do veículo, trancando, destrancando e dando partida no motor.

O seu carro está te vigiando
Um carro pode gerar cerca de 25 gigabytes de dados a cada hora e até 4.000 gigabytes por dia, de acordo com algumas estimativas. Os dados encontrados nas mãos das montadoras podem chegar a 750 bilhões de dólares até 2030, estimou a consultoria McKinsey. O negócio também é extremamente lucrativo para as operadoras de seguros, que se alimentam de dados graças à onipresença de smartphones e pela disponibilidade de dispositivos telemáticos.

Os seguros que usam dados oferecem ao consumidor benefícios por uma direção mais segura e descontos de acordo com sua forma de dirigir. Por outro lado, isso significa que empresas terão acesso a todos os seus dados de viagem, à forma que você dirige, à música que escuta, aos locais por onde passa e por onde para, entre muitas outras informações que podem, potencialmente, ser comercializadas para terceiros.

Outra questão importante é que os consumidores que não utilizarem esse tipo de seguro para manter sua privacidade poderão enfrentar preços cada vez mais altos. A Root Insurance, seguradora que usa dados, diz que seus clientes podem obter taxas até 52% mais baixas do que as seguradoras anteriores.

Experiência de usuário aprimorada

A conectividade será essencial para o uso de dados do carro para gerar receita, otimizar custos e melhorar a segurança. A inteligência artificial será usada para antecipar e responder às necessidades e comandos dos ocupantes de veículos, aproveitando sensores e dados no veículo sobre as preferências do consumidor de vários domínios digitais, incluindo mídias sociais, residências e escritórios conectados. À medida que a tecnologia se tornar mais sofisticada, as expectativas dos consumidores evoluirão, criando a necessidade de oferecer experiências de usuário ainda melhores. 

Essa evolução permitirá que o foco se expanda para além do motorista e para todos os ocupantes, aos quais são oferecidos controles personalizados, entretenimento, informação e publicidade. No nível mais avançado, o sistema se torna um "motorista virtual" em que a IA cognitiva executa tarefas de comunicação e coordenação complexas, permitindo antecipar necessidades e realizar tarefas complicadas e não planejadas para os pilotos.

A tecnologia Ford SYNC, por exemplo, permite que um motorista não apenas faça chamadas telefônicas no viva-voz, mas também controle os sistemas de entretenimento, clima e navegação usando sua voz. A tecnologia SYNC Connect permitirá iniciar remotamente o veículo, destrancar as portas, verificar o nível de combustível e muito mais no seu smartphone, operando por meio do novo aplicativo FordPass.

Seu carro pode ser uma antena 4G (e, em breve, 5G)
E se vivemos em um tempo da internet das coisas, por que não internet para os carros? A promessa de um "veículo conectado" deve se tornar realidade em breve. A tecnologia de máquina para máquina de nível automotivo fornece conectividade celular e serviços enriquecem o estilo de vida móvel para motoristas e passageiros, oferecendo conectividade de alta velocidade e um conjunto de recursos avançados.

A tecnologia de comunicação que utiliza as mesmas redes 5G permitirá que os veículos se comuniquem sem fio uns com os outros, com sinais de trânsito e outros equipamentos na estrada, melhorando a funcionalidade e a segurança. Os carros transmitiriam sua localização, velocidade e direção, e serão capazes de negociar revezando-se nos sinais de parada ou se fundindo em faixas, o equivalente digital de motoristas humanos fazendo contato visual.

A princípio, essa tecnologia deve ajudar carros com tração convencional, avisando sobre riscos de colisão ou estradas geladas. Sua evolução poderá tornar veículos autônomos mais capazes e inteligentes que poderão decidir o que fazer por conta própria, em vez de devolver o controle a um ser humano ou desacelerar para tentar evitar um problema.

No entanto, a tecnologia sem fio precisa suportar temperaturas extremas, vibrações excessivas e umidade experimentadas na estrada. Além disso, especificações rígidas de fabricação automotiva aumentam os desafios enfrentados por um "carro inteligente" eficaz. A Audi já está dando seus primeiros passos nessa direção e trocará o uso interno de wi-fi por um 5G privado.

A superconectividade é uma tendência para todas as áreas de nossas vidas e com o transporte não seria diferente. Essa transformação pode nos garantir um trânsito mais seguro, com menos acidentes causados por erros humanos, o que reduziria as fatalidades e os gastos com reparos e hospitalizações. Outro benefício seriam menos assaltos, graças à grande quantidade de câmeras, conectividade entre os veículos e dispositivos de segurança que poderiam impedir que os assaltantes pudessem fugir com o carro.

É claro que tudo tem um preço: a privacidade mais uma vez será colocada em segundo plano em troca dessa praticidade e segurança. Da mesma forma como as redes sociais ou os sites de compras, é difícil saber exatamente para que e por quem nossos dados serão utilizados. Ainda teremos muitas discussões sobre o tema no futuro e a necessidade de refletir sobre essas questões precisa ser acompanhada de regulamentações e atitudes mais abertas por parte das empresas privadas que vão explorar o mercado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Anielle Guedes estudou Física e Economia na Universidade de São Paulo e sem concluir os cursos de graduação embarcou em uma pós graduação nos Estados Unidos sobre inovação disruptiva na Singularity University (localizada em uma base da NASA). Assim virou especialista em tecnologias emergentes, foresight e desafios globais. Fundou uma startup de impressão 3D e manufatura avançada para construção, a qual liderou por 4 anos e atuou no Brasil, Estados Unidos e Europa. Foi eleita pela Forbes, MIT e Bloomberg como uma das jovens mais inovadoras do mundo. Tornou-se consultora em inovação e desenvolvimento econômico, participando de projetos de advisory e advocacy em governos federais e organismos multilaterais, além de ser conselheira de organizações como o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Palestrou em mais de 30 países. Atualmente cursa Economia e Ciência Política pela Universty of London, London School of Economics.