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Quem paga a conta do coronavírus? Trabalho remoto ainda é para poucos

Anielle Guedes

12/03/2020 04h00

Desde que a covid-19 começou a se alastrar surgiu uma nova preocupação global: como evitar que o contágio se expanda em locais superlotados, como trens e ônibus, e ambiente fechados, como escritórios e salas de aula? Como a rotina pode seguir inalterada, sem que as pessoas se exponham ao risco de contaminação e o vírus se alastre mais? Grandes empresas nos Estados Unidos, na Ásia e na Europa têm solicitado a seus funcionários que trabalhem remotamente. Outros trabalhadores não possuem empregadores, são autônomos e viram sua renda mensal ser reduzida significativamente. A realidade da grande maioria dos trabalhadores esbarra na precarização e na falta de redes de segurança, sobretudo diante do crescimento de serviços da economia dos bicos e da economia informal. Quem irá pagar a conta da covid-19? 

Evitem aglomerações… se puderem 

Quando o novo coronavírus tomou a todos de surpresa, há algumas semanas, ficamos todos sem entender como proceder. Nos noticiários, as recomendações dos especialistas eram singelas: lavem bem as mãos, evitem aglomerações, mantenham os ambientes ventilados e, se possível, trabalhem de casa. 

No entanto, existem dezenas de trabalhos que não podem ser feitos de maneira remota. É o caso de motoristas, faxineiros, cozinheiros, médicos, professores e garçons, para citar apenas alguns. E essa é a realidade de grande parte da população. 

O coronavírus também expõe a realidade da desigualdade econômica, em que os menos instruídos têm menos chance de trabalhar de maneira remota. Nos Estados Unidos, das pessoas que podem cumprir suas funções laborais em casa, uma minoria possui formação de nível médio, apenas 3% das pessoas. Enquanto isso, 47% dos que podem trabalhar online são formados ao menos em um nível superior, como bacharelados. 

Da mesma forma, as pessoas que podem trabalhar de maneira remota possuem, geralmente, mais acesso a serviços de saúde e licenças médicas. Isso sem falar da repercussão de pedir uma folga, que pode implicar descontos do salário, constrangimentos e até mesmo demissões. 

Gigantes de tecnologia como Microsoft, Google, Twitter, Facebook e Amazon anunciaram que pagarão aos funcionários por hora o salário regular, mesmo incentivando muitos funcionários a trabalhar em casa, reduzindo a necessidade de pessoal no local.

A maior disparidade para os trabalhadores é o acesso aos cuidados de saúde: nos Estados Unidos, cerca de 27,5 milhões de pessoas carecem de seguro saúde. Isso os torna menos propensos a procurar atendimento médico quando ficam doentes ou a ter acesso a benefícios preventivos de saúde. Em resumo, os que estão mais vulneráveis à doença são os que têm menos chances de combatê-la. Além, é claro, de colocar o resto da comunidade em risco. 

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Apps não tiram folga 

Com o crescimento da economia informal isso é ainda mais forte, afinal, motoristas e entregadores de aplicativos ganham de acordo com as horas trabalhadas e não têm garantia alguma ou benefícios de saúde por parte das empresas. Inclusive, os serviços de entrega crescem à medida em que há um aumento de infectados pela doença. 

Com medo de sair de casa, mais pessoas pedem itens entregues em casa – o Instacart, serviço de entregas, diz que suas vendas na semana passada subiram 10 vezes nos Estados Unidos e chegaram a crescer 20 vezes na Califórnia e Washington, onde o vírus tem mais se alastrado. Desinfetantes para as mãos, conservas e máscaras estavam entre os itens mais procurados, segundo a empresa. Somente na primeira semana da crise com o vírus, servicos de entrega de supermercado na Itália aumentaram 81%, estimaram a Amazon e a rede nacional Esselunga.

O senador Mark Warner enviou cartas aos CEOs da Uber, Lyft, DoorDash, GrubHub, Instacart e Postmates, solicitando a criação de fundos de saúde para compensar os motoristas que precisam reduzir o horário devido ao coronavírus. Uber anunciou que compensará os motoristas por até 14 dias se eles forem diagnosticados com covid-19 ou colocados em quarentena pelas autoridades de saúde. A concorrente Lyft fará o mesmo por um período não especificado.

Até agora, no entanto, as empresas apenas distribuíram orientações aos motoristas sobre como manter os carros limpos, lavar as mãos e ficar em casa se sentirem mal. Um obstáculo para essas empresas é que fornecer licença médica e remuneração poderia dificultar a negação de que seus trabalhadores são funcionários. 

O boom do trabalho remoto

Na contramão, a Microsoft, Google, Twitter, Facebook e Amazon anunciaram que pagarão aos funcionários por hora o salário regular, mesmo incentivando muitos funcionários a trabalhar em casa, reduzindo a necessidade de pessoal no local. Outras gigantes, como Apple e Nestlé, estão restringindo viagens não essenciais para evitar que o vírus se espalhe.

Para alguns, o coronavírus vai ajudar a promover o trabalho remoto. Eesse modelo não apenas auxilia a manter as pessoas protegidas desse e de outros vírus, mas também reduz as horas gastas em trajetos de ida e volta do trabalho, reduz as emissões de gases na atmosfera e ainda permite que as pessoas passem mais tempo com suas famílias. Pode ser uma oportunidade para a difusão do modelo em grande escala. 

No Brasil, algumas empresas também têm determinado que os funcionários façam home office, como Mastercard e XP Investimentos. Mas a realidade brasileira reflete muito bem as dificuldades da economia informal ao redor do mundo; segundo o IBGE, o número de autônomos chegou a 24,6 milhões de pessoas, uma alta de 3,1% (mais 745 mil pessoas) em comparação com 2019. 

Já na Itália, epicentro da epidemia no continente europeu, foi lançada uma iniciativa que promove o trabalho remoto chamada de "Smart Working". Além do fechamento das escolas durante todo o mês de março e a transferência das aulas para a modalidade de ensino a distância, o pacote pretende dar amparo legal as empresas que adotem o trabalho online. 

Até o serviço público adotou a política de trabalhar remotamente. Uma circular do dia 4 de março, emitida pelo governo italiano, afirma que se não houver computadores públicos suficientes para que os funcionários da administração trabalhem de casa, eles podem inclusive utilizar seus próprios equipamentos. Milhões de italianos tiveram que adotar, às pressas e despreparados, o trabalho remoto. 

Pacotes de estímulo dão conta? 

Para estimular a economia norte-americana, que já sofre grande choque com a crise, o governo Trump anunciou nesta terça-feira (10) que iria discutir com senadores republicanos um corte substancial a impostos ligados à folha de pagamento.  Também faria parte da pauta uma nova legislação direcionada a proteger os trabalhadores que ganham por hora e que poderiam ter perdido renda em função da covid-19. 

Giuseppe Conte, primeiro-ministro italiano, liberou no dia 10 de março um pacote de ajuda a famílias que foram afetadas pelo vírus. Para quem tem hipotecas, ofereceu isenção dos pagamento por 18 meses. Para trabalhadores formais empregados, houve a garantia de que não seria despedidos. Para os trabalhadores autônomos, uma bolsa de até 1.500 euros a ser paga em parcelas para compensar a renda perdida com os bloqueios impostos.

Para além das perdas no mercado financeiro e fábricas paradas à espera de peças vindas da China, sem dúvida há outros enormes prejuízos econômicos e sociais. Pequenos negócios fechados, empresas locais sem trabalhadores, turismo e deslocamentos quase completamente parados. Será que essas iniciativas serão capazes de mitigar os danos coletivos trazidos pela epidemia, ou os trabalhadores ficarão com a maior parte da conta?

Sobre a autora

Anielle Guedes estudou Física e Economia na Universidade de São Paulo e sem concluir os cursos de graduação embarcou em uma pós graduação nos Estados Unidos sobre inovação disruptiva na Singularity University (localizada em uma base da NASA). Assim virou especialista em tecnologias emergentes, foresight e desafios globais. Fundou uma startup de impressão 3D e manufatura avançada para construção, a qual liderou por 4 anos e atuou no Brasil, Estados Unidos e Europa. Foi eleita pela Forbes, MIT e Bloomberg como uma das jovens mais inovadoras do mundo. Tornou-se consultora em inovação e desenvolvimento econômico, participando de projetos de advisory e advocacy em governos federais e organismos multilaterais, além de ser conselheira de organizações como o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Palestrou em mais de 30 países. Atualmente cursa Economia e Ciência Política pela Universty of London, London School of Economics.

Anielle Guedes