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Anielle Guedes

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Em breve você também poderá ter um robô em casa

Anielle Guedes

20/06/2019 04h00

Imagine se no seu tempo de folga você não precisasse limpar a casa, ir ao mercado ou cuidar do quintal. Parece um sonho tornado realidade, não? E se a resposta de todos os seus problemas fossem os robôs? Com os avanços tecnológicos, os robôs deixam de ser apenas itens de ambientes industriais para tornarem-se parte das nossas vidas cotidianas.

E além do aspecto mais prático, eles também passam a auxiliar nos cuidados à saúde, fazer companhia às pessoas solitárias, reduzir distâncias e, até mesmo, ajudar na educação de crianças pequenas. A grande questão é: as pessoas confiarão em entregar suas vidas nas mãos de um robô?

Das grandes indústrias às nossas casas

Assim como os computadores que começaram sua história como grandes máquinas industriais, tomando o espaço de um prédio inteiro, e hoje passaram a pertencer ao ambiente doméstico, sob a forma de desktops, notebooks e celulares, o mesmo acontece com os robôs. A princípio, se fizeram presentes apenas nas grandes fábricas, em trabalhos que demandam muito mais força do que qualquer ser humano pode oferecer. Agora, estão em formas pequenas e simpáticas, cheias de destreza e delicadeza, e dentro de nossos lares.

Por meio da convergência da inteligência artificial, assistentes pessoais e robôs, a tecnologia permitirá que tenhamos uma casa totalmente automatizada, de acordo com as rotinas diárias. Vamos supor que você utilize a Siri, assistente virtual da Apple, para programar todas as atividades do seu dia, como horário do café da manhã, do trabalho, de uma reunião, compras no mercado, jantar com amigos e horário de dormir.  Se a assistente virtual estiver trabalhando com a inteligência artificial e a robótica, um robô que anda e fala seria capaz de preparar o café da manhã na hora em que você precisa, fazer compras de itens em falta na geladeira e até limpar a casa enquanto você estiver na rua.

Apesar de hoje os assistentes virtuais ainda não representarem parte fundamental do cotidiano da maioria das pessoas, o futuro desenvolvimento dessas tecnologias deve definir como a população nas grandes cidades irá conciliar seus compromissos profissionais e pessoais. Para os céticos, esse pode parecer um passo grande demais para a tecnologia atual, mas a Boston Dynamics dá uma pequena amostra do que a robótica avançada já é capaz e de suas possibilidades futuras.

Apesar de terem sido construídos com propósitos militares através de um financiamento da agência governamental americana DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency), os robôs da Boston Dynamics são parte do nosso imaginário quando pensamos em capacidade de realização de tarefas. As máquinas da empresa combinam os princípios de controle dinâmico e equilíbrio com projetos mecânicos, eletrônica de ponta e software para percepção, navegação e inteligência.

O modelo Atlas, por exemplo, é um dos robôs humanoides da empresa que possui um sistema de controle que coordena os movimentos dos braços, tronco e pernas para alcançar a manipulação móvel em todo o corpo, expandindo seu alcance e espaço de trabalho. O robô é feito com impressão 3D, com alta resistência, capacidade de manipular objetos e equilíbrio para andar em ambientes acidentados e para voltar a andar, mesmo se for empurrado ou jogado no chão. De acordo com os mais recentes desenvolvimento em robôs domésticos, parece que teremos em casa versões que combinam as capacidades do Atlas com as funções da Rosie dos Jetsons.

Time completo de limpeza

Se é praticidade que queremos, já podemos nos sentir no futuro com alguns pequenos robôs domésticos disponíveis no mercado. Os primeiros robôs domésticos desenvolvidos tinham apenas a função de nos livrar das tarefas de organização e limpeza das residências. O mais famoso destes é o Roomba, que chegou ao mercado em 2002, e ainda faz muito sucesso. A mais nova versão do aspirador automático pode ser controlada via Wi-Fi, por meio do celular ou conectado aos serviços Amazon Home ou Assistente de ativação por voz. Além de trabalhar sozinho, o robô pode se conectar à sua estação de carregamento e retomar a limpeza quando a bateria estiver cheia.

Cortar a grama também não precisa mais ser um problema: o Landroid da Worx é um robô projetado para aparar diariamente o gramado da sua casa, ao contrário dos aparadores comuns que só podem ser utilizados quando a grama está mais alta. Outra vantagem é que o aparador robótico também não é tão barulhento como o tradicional, volta à sua estação para recarregar sua bateria baixa, ou quando começa a chover.

A limpeza da piscina também já é garantida por robôs; o modelo pequeno Dolphin Nautilus Plus possui vários elementos de aspiração e lavagem que são trocados automaticamente pelo robô. O GPS do aparelho garante que toda a piscina será limpa.

Encheu várias máquinas de lavar com roupas e agora precisa dobrar tudo? A FoldiMate é uma máquina projetada para dobrar roupas automaticamente. Simples assim: coloque as roupas na máquina e ela se encarrega de dobrar tudo direitinho. Dobras perfeitas para Marie Kondo nenhuma botar defeito.

De forma integrada com as os assistentes Alexa e Google Home, os robôs da Aeolus prometem ser tão completos que se assemelham a uma versão moderna da Rosie dos Jetsons: aspirar, passar pano no chão, guardar louças e mover os móveis são algumas das garantias da empresa. Os robôs da empresa trabalham com comandos de voz e texto e por meio de tecnologia de inteligência artificial aprendem novas tarefas, reconhecem pessoas e são capazes de lembrar onde mais de mil itens domésticos devem ser guardados.

Como não amar os robôs companheiros?

A falta de tempo para executar essas tarefas simples não é a única tendência das populações de grandes cidades, a solidão também é. Considerada uma epidemia global, estima-se que uma em cada quatro pessoas em países industrializados pode estar vivendo na solidão, com riscos à saúde que se assemelham aos causados pela obesidade, por exemplo. E o que os robôs têm a ver com isso? Talvez, tudo. Muito populares no Japão e Coréia do Sul, esses robôs surgem como uma forma de suprir a necessidade de socialização dos humanos.

O Lovot é um robô fofo e peludo que foi projetado para ser amado. Com um modelo parecido com o Furby, ele não cumpre nenhuma função "prática", como buscar algo na cozinha, por exemplo, mas interage com seres humanos e possui um par de nadadeiras que pode usar para mostrar surpresa, afeição ou até implorar para ser pego no colo.

A cabeça do robozinho conta com câmeras e sensores que permitem a identificação de sons, identifique humanos, distingue pessoas e animais de móveis usando visão térmica. Os olhos do robô têm seis camadas de projeções para criar uma impressão de profundidade, e seu exterior é sensível ao toque. Se você fizer cócegas em Lovot, ele poderá dar risada e, se você o segurar no seu colo, ele adormecerá.

O também japonês Paro é baseado em focas e possui sensores táteis na pele, bigodes sensíveis ao toque e um sistema de motores que movimentam os membros. O robô responde ao carinho dos usuários movendo sua cauda e abrindo e fechando os olhos. Ele ainda responde a sons, pode aprender nomes e produz sons semelhantes a uma foca bebê real.

Já o robô Buddy promete unir o útil ao agradável: o robô atua como um companheiro, mas também mantém a casa segura e cumpre algumas tarefas práticas, como um assistente virtual. Com 60cm de altura, o Buddy é capaz de expressar uma gama de emoções ao longo do dia, como felicidade ao dar as boas-vindas aos membros da família, ou mau humor, caso não esteja recebendo atenção.

O Buddy assiste e monitora a casa a qualquer sinal de intrusão ou de incêndios, mandando alertas em casos de situações incomuns; interage com crianças com jogos, exercícios de matemática e memória e introdução a programação; possibilita o controle da sua smart home, com acesso a luzes, termostatos, entre outros dispositivos de casa; além de monitorar idosos e lembrar os horários de medicação.

Cuidados médicos

Cuidados médicos são, aliás, uma tendência grande da robótica com o crescimento da população idosa ao redor do globo. Os cuidados podem ser oferecidos desde necessidades simples, até as mais complexas. Uma união entre os robôs que oferecem companhia e serviços de saúde é o ElliQ que facilita a comunicação para pessoas idosas, possibilitando mais contato com familiares ou com cuidadores, além de oferecer companhia às pessoas solitárias.

Enquanto isso, o Pillo Health e a Pria são dois modelos que oferecem uma solução para que pacientes não esqueçam de tomar seus medicamentos e tomem suas doses adequadas. Os equipamentos podem armazenar e organizar até 28 doses de medicação em horário pré-estabelecido, além de facilitar chamadas em vídeo entre pacientes e cuidadores, permitindo análise de seus hábitos a partir do dispositivo.

Indo além, cientistas da RIKEN e da Sumitomo Riko Company Limited desenvolveram um novo robô experimental de cuidados de enfermagem intensiva, o ROBEAR, que é capaz de levantar um paciente de uma cadeira de rodas ou auxiliar um paciente com dificuldade de locomoção a se mover. O robô é uma resposta ao rápido crescimento da população idosa no Japão e a necessidade de apoiar as ações dos profissionais da saúde, que tem como uma de suas ações mais extenuantes levantar um paciente de uma cama em uma cadeira de rodas, sendo essa uma das principais causas de dor lombar.

A Samsung é outra empresa que unirá a inteligência artificial com seus avanços em hardware, software e experiência de usuário em sua nova linha de robôs. O Samsung Bot Care é especializado em ajudar o usuário a gerenciar sua rotina diária de saúde, medindo a pressão arterial, a frequência cardíaca, a respiração, rastreando o sono dos usuários e oferecendo alertas de horários para tomar os medicamentos. O robô ainda notifica os membros da família credenciados quando um usuário idoso está passando por uma emergência e oferece suporte a videochamadas para comunicação em tempo real.

Melhor para as crianças que smartphones e tablets

Os robôs prometem muito para o futuro de nossas casas, de nossa saúde e relacionamentos, mas um de seus usos mais promissores é a educação. As crianças já podem, hoje, se beneficiar com essas ferramentas de aprendizado. É o caso do Q.bo One, um Assistente de Robótica Pessoal Open Source que permite que desenvolvedores, fabricantes e crianças aprendam robótica e construam seu próprio assistente pessoal de inteligência artificial, por meio de código aberto.

Já o Leka é um robô redondo com função de ajudar crianças com dificuldades de desenvolvimento cognitivo. Ele trabalha com uma gama completa de estímulos sensoriais, capazes de despertar a curiosidade, o prazer e incentivar a interação social. O robô facilita o relacionamento das crianças com os pais, trabalha com habilidades motoras grossas e finas e com habilidades cognitivas, por meio de uma biblioteca de jogos completa e constantemente atualizada.

Baseado em robôs da Pixar, o pequenino Cozmo também é um robô planejado para crianças que age como uma criança, esboçando reações ao ser carregado no colo, ao encontrar obstáculos ou quando se diverte em uma brincadeira. O pequeno robô é quase um animal de estimação que passeia e brinca com jogos e blocos. Por falar em animal de estimação, o cachorro robô Aibo se expressa e se move de maneira dinâmica e realista, interagindo com os usuários, assim como um animal de verdade. A empresa foi fechada, mas a Sony continua a venda do produto nos Estados Unidos.

Telepresença – a presença digital através de um meio físico

Quer estar em diversos ambientes ao mesmo tempo? Esses robôs serão capazes de, não apenas criar uma presença virtual de forma física, mas também possibilitar atividades como a limpeza de casa, fazer compras em um restaurante ou depositar algum pacote nos correios. O Beam e o Specs são robôs capazes de se movimentar pelas ruas, com uma tela e uma câmera acopladas que permitem que você faça diversas atividades à distância.

A interação humana é garantida pelas chamadas ao vivo, mas as fronteiras geográficas e de tempo são reduzidas, dando a liberdade de que as pessoas se movem em qualquer lugar, facilitando a comunicação profissional e pessoal.

Os robôs são intermediários físicos de atividades que já acontecem no meio digital, oferecendo suporte para que os humanos reduzam as limitações de espaço e de tempo. De atividades simples às mais complexas, é possível pensar em um futuro não muito distante em que todos nós tenhamos ao menos um robô em casa para facilitar as nossas vidas.

No ambiente doméstico, podem realizar tarefas como limpeza, cuidados e companhia, e no exterior facilitam processos que demandam um intermediário. Essa tecnologia existe para nos auxiliar e esses novos robôs podem ser o passo a frente que precisamos para que o trabalho em conjunto seja otimizado. Ao invés de dobrar roupas, temos mais tempo para cuidar de nós mesmos, ou temos mais tempo útil com nossas famílias.

Mas será que essa inovação será bem aceita pela maioria da sociedade? A teoria de que os robôs irão tomar conta do universo já é antiga na ficção científica e faz parte do imaginário de muitas pessoas, por isso é possível que exista muita resistência em confiar em robôs de uma maneira tão próxima, como passar a conviver com eles em nossos lares. Talvez seja uma questão de regulação de dados e privacidade, já que ninguém quer espiões dentro de casa. Talvez seja uma questão de humanizar ainda mais a tecnologia, já que os humanos são afetivos por natureza e podem até se apaixonar por robôs, como no filme Her. Talvez seja mesmo uma questão de tempo para que precisemos tanto dos robôs a ponto de não termos como não coexistir com eles – e quem sabe chamá-los de família.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Anielle Guedes estudou Física e Economia na Universidade de São Paulo e sem concluir os cursos de graduação embarcou em uma pós graduação nos Estados Unidos sobre inovação disruptiva na Singularity University (localizada em uma base da NASA). Assim virou especialista em tecnologias emergentes, foresight e desafios globais. Fundou uma startup de impressão 3D e manufatura avançada para construção, a qual liderou por 4 anos e atuou no Brasil, Estados Unidos e Europa. Foi eleita pela Forbes, MIT e Bloomberg como uma das jovens mais inovadoras do mundo. Tornou-se consultora em inovação e desenvolvimento econômico, participando de projetos de advisory e advocacy em governos federais e organismos multilaterais, além de ser conselheira de organizações como o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Palestrou em mais de 30 países. Atualmente cursa Economia e Ciência Política pela Universty of London, London School of Economics.

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