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Anielle Guedes

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50 anos da Internet: como foi criada e o que pensam seus criadores hoje

Anielle Guedes

07/11/2019 04h00

Há 50 anos nascia a Internet, ou ao menos a predecessora dela, a ARPANET. A partir da primeira mensagem trocada remotamente entre dois computadores, um na Universidade da Califórnia em Los Angeles e outro em Stanford, estava estabelecida a primeira conexão on-line. Com ela, a fagulha que iria dar origem à tecnologia que mais modificou nossa maneira de viver no último século. Ainda é difícil calcular os impactos da tecnologia e sua extensão, mas para qualquer um que vive em conexão com o mundo digital, não há dúvida de que houve uma expressiva mudança dos anos 90, quando Google se tornou até verbo, para os dias de hoje, em que a internet permeia (quase) todas as atividades que realizamos.

Um pouco de história

Financiada pela DARPA (Agência de Projetos e Pesquisa Avançada de Defesa), a Internet nasceu como um pequeno projeto de pesquisa militar. Durante a Guerra Fria, o governo americano temia ataques que pudessem trazer a público informações sigilosas, por isso, queria desenvolver redes seguras para troca de informações. Além disso, os Estados Unidos não queriam mais ficar para trás no desenvolvimento de tecnologias, uma vez que a União Soviética lançou Sputnik, os ultrapassando no lançamento de satélites ao espaço. 

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A princípio, quatro universidades foram envolvidas: a Universidade da Califórnia em Los Angeles, Stanford, Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e universidade de Utah. Foi entre elas que ocorreu o primeiro envio de "e-mail" da história. Charley Kline, da UCLA, enviou a primeira transmissão de dados digital a Bill Duvall, um cientista que estava do outro lado da Califórnia, na Universidade de Stanford. Apesar da conexão ter caído enquanto Kline digitava a terceira letra da palavra "login", nascia a ARPANET uma rede acadêmica que mais tarde daria origem à internet. A partir dali, uma revolução havia começado, apesar de ninguém naquela sala ou fora dela desconfiar. 

Depois desse momento inicial, a ARPANET passou a conectar mais universidades e computadores governamentais. Em 1974, Vint Cerf e Bob Kahn desenvolveram o TCP/IP (Transmission Control Protocol/Internet Protocol) como a linguagem universal que permitia aos computadores conversar entre si via cabos Ethernet. Muita coisa mudou ao longo dos anos, mas o protocolo TCP/IP ainda é o mesmo que utilizamos para acessar a rede.

Contribuição não muito conhecida: Al Gore

Quando discutimos as origens da internet, existe uma piada antiga de que Al Gore teria dito que a inventou. É claro que ele não foi um dos inventores, porém teve um papel importante para a disseminação da rede como a conhecemos hoje. Nos anos 90, o Congresso dos EUA aprovou a Lei de Computação e Comunicação de Alto Desempenho, mais conhecida como "Gore Bill", em homenagem ao seu patrocinador original, o então senador Al Gore. 

Graças ao financiamento do governo americano, por meio da National Science Foundation (NSF) com a tarefa de construir uma "superestrada da informação", o processo de comercialização da internet foi acelerado. Os próprios  Robert Kahn and Vint Cerf, pais da internet, reconhecem a importância de Al Gore no processo, dizendo que ele foi o primeiro líder político a compreender a importância da internet e defender seu desenvolvimento. 

Primeiro a Internet, depois o WWW

Neste ano, também é celebrado o aniversário de 30 anos da World Wide Web, conhecida como www ou web. A www foi inventada dentro da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), por Tim Berners-Lee, como um sistema de gerenciamento de informações. Apesar de muitas vezes ser confundida com a internet propriamente dita, as duas são coisas diferentes: a internet é uma rede de computadores conectados ao redor do mundo, enquanto a World Wide Web nada mais é do que uma das diversas maneiras de acessar a internet. 

A internet provê alguns serviços como e-mail e troca de mensagens instantâneas, enquanto a web usa o protocolo HTTP para promover essa transferência de informações e depende de navegadores para que o internauta acesse links de arquivos que ficam hospedados em outros computadores conectados. Em 1989, Tim Berners-Lee, que já atuava na CERN, percebeu que poderia compartilhar informações explorando uma tecnologia emergente chamada hipertexto.

Em outubro de 1990, o desenvolvedor já havia escrito as três tecnologias fundamentais que continuam sendo a base da web de hoje: HTML: HyperText Markup Language, a linguagem de formatação para a web; URI ou URL: Identificador Uniforme de Recursos, "endereço" exclusivo e usado para identificar cada recurso na web; e HTTP: protocolo de transferência de hipertexto, que permite a recuperação de recursos vinculados de toda a web.

Criadores e criatura: "Não sabíamos onde poderia chegar"

50 anos depois da invenção da internet, Charley Kline e Bill Duvall acreditam que a internet tem um potencial para dar ao ódio, desinformação e abuso uma plataforma para se sustentar. Leonard Kleinrock, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), que desenvolveu a teoria matemática por trás da comutação de pacotes, está abrindo um novo laboratório que pesquisa tudo relacionado à Internet.

O laboratório será, sobretudo, destinado à análise e estudo das conseqüências não intencionais da internet. Kleinrock fala sobre como ela democratiza a informação e como também é uma fórmula perfeita para o lado sombrio das pessoas. "Como engenheiros, não estávamos pensando em termos de comportamento desagradável", diz. Ele ressalta que os cientistas trabalhando na criação da internet não estavam cientes de seu alcance, muito menos do lado sombrio que ela poderia gerar. 

Para ele, é necessário que funcionários e entidades do governo monitorem e julguem com mais atenção os abusos cometidos na internet, como ataques cibernéticos, violações de dados e pirataria. Além disso, ele acredita que os usuários precisam criar consciência, responsabilizar os sites e questionar as políticas de privacidade. Ao mesmo tempo, os cientistas precisam criar métodos mais avançados de criptografia para proteger a privacidade individual, impedindo que os autores usem bancos de dados roubados. Com certeza, são desafios que necessitam das ações de diversos setores da sociedade.

O contrato social para uma melhor internet

Tim Berners-Lee, o fundador da www, também renovou seu apelo por um novo contrato para a Web, um conjunto de princípios orientadores destinados a "proteger a Web como força para o bem". Lee fundou a World Wide Web Foundation em 2009 para promover a web aberta como um bem público e um direito básico e por meio dela divulgou uma observação de que o aniversário da web "não é totalmente feliz", acrescentando que seu poder para o bem está sendo subvertido por "golpistas, pessoas que espalham ódio ou interesses pessoais que ameaçam a democracia".

Esse contrato estabelece princípios para que governos, empresas e cidadãos "protejam a Web aberta como um bem público e um direito básico para todos". Governos e empresas prometem manter a conectividade e respeitar a privacidade e os dados pessoais dos cidadãos na Internet, enquanto os cidadãos se comprometem a ser criadores e colaboradores e a construir comunidades fortes e seguras para as pessoas.

Desde 2015, Lee trabalha em uma plataforma web descentralizada de código aberto chamada Solid, que visa "remodelar a web como a conhecemos". O modelo Solid prevê que usuários armazenem dados pessoais em um "armazenamento on-line pessoal" (POD) em um servidor Solid, fornecendo acesso autorizado a empresas e serviços, com o objetivo de "[restaurar] a propriedade legítima dos dados de volta para todos os usuários da Web".

Como serão os próximos 50 anos?

Está claro que nas últimas cinco décadas, a internet transformou a existência humana. Com seus pontos positivos, como a conectividade, democratização da informação e redução de barreiras físicas, e pontos negativos, como a falta de privacidade de dados, os crimes virtuais e redes criminosas. Porém, como será o futuro da internet nos próximos 50 anos, quando estaremos ainda mais conectados do que hoje?

É consenso entre especialistas que a separação entre on e off deixará de existir e que, a forma como utilizamos a internet hoje será considerada arcaica. Seja por meio de óculos de realidade aumentada ou por interfaces que funcionarão diretamente em nossos cérebros, a vida real ficará ainda mais entrelaçada à virtual e poderemos interagir com o mundo por meio da internet.

Digitar será coisa do passado, pois as comunicações verbais e auditivas tomarão conta como uma forma de facilitar os processos. Essa mudança já pode ser notada por meio de tecnologias como Siri e Alexa, por exemplo. Para que isso funcione bem, o hardware precisará melhorar e utilizaremos implantes auditivos para acessar a rede. Nesse cenário, não será necessário aprender novos idiomas ou realizar revisões ortográficas, pois as tecnologias de corretor e tradução serão aperfeiçoadas. 

Grandes empresas terão ainda mais acesso aos nossos dados. Isso resultará, sim, em anúncios publicitários cada vez mais personalizados e direcionados ao público, mas também em serviços de saúde mais completos. Os médicos terão acesso ao que comemos, a quantidade de exercícios que fazemos e à qualidade do nosso sono. A Biodata tem muito potencial de melhorar a prestação de cuidados médicos e apoio educacional, no entanto isso dependerá de quem possuirá os dados e como eles serão utilizados. 

Quanto maiores forem as proporções da internet, maiores serão os desafios para resolver. Enquanto isso, o governo e a sociedade ainda não demonstram preparo para lidar com todas essas transformações, que demandam medidas urgentes. Percorremos um longo caminho e mudanças gigantescas nos últimos 50 anos e a tecnologia é desenvolvida de forma cada vez mais ágil e complexa. Como estaremos daqui a meio século? Só o tempo poderá dizer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Anielle Guedes estudou Física e Economia na Universidade de São Paulo e sem concluir os cursos de graduação embarcou em uma pós graduação nos Estados Unidos sobre inovação disruptiva na Singularity University (localizada em uma base da NASA). Assim virou especialista em tecnologias emergentes, foresight e desafios globais. Fundou uma startup de impressão 3D e manufatura avançada para construção, a qual liderou por 4 anos e atuou no Brasil, Estados Unidos e Europa. Foi eleita pela Forbes, MIT e Bloomberg como uma das jovens mais inovadoras do mundo. Tornou-se consultora em inovação e desenvolvimento econômico, participando de projetos de advisory e advocacy em governos federais e organismos multilaterais, além de ser conselheira de organizações como o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Palestrou em mais de 30 países. Atualmente cursa Economia e Ciência Política pela Universty of London, London School of Economics.

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